Fotografia da minha autoria

«É preciso ver o que não foi visto, 

ver outra vez o que se viu já»

Évora não foi a primeira cidade alentejana que conheci. Porém, foi aquela que me despertou um vínculo umbilical imediato. E foi, durante alguns anos, a minha casa de férias - por uma semana mágica. Por isso, há muitos traços que resistem na memória. E o regresso revela-se sempre emocional. Acredito que as viagens, tal como o nosso lar, são feitas de sentimentos distintos. E que a comunicação que estabelecemos em cada passo ajuda a construir um dialeto muito próprio. Estive longe do seu regaço por um longo período temporal. Portanto, voltar deixou-me a pele eriçada e o peito em alvoroço. Mas pelos melhores motivos.

As ruas são um misto de delicadeza, imponência e nostalgia. Não só porque me permitem recuar a momentos únicos da minha infância/adolescência, quando passava noites descomplicadas na Praça do Giraldo, mas também porque os monumentos se sucedem numa tela impressionante, que nos deixa sem fôlego, devido à sua arquitetura e a toda a sua componente artística. Esta cidade histórica, localizada «no coração do Alentejo», foi fundada [ou refundada] pelos Romanos e é, hoje, classificada como Património Cultural da Humanidade, com todo o mérito, até porque a região não para de surpreender com tudo «o que tem para oferecer» a quem a visita. O seu equilíbrio entre a paisagem megalítica, a imagem medieval e a exuberância «dos palácios, mosteiros e igrejas» torna-a única. E com um encanto ímpar.

No mesmo plano de território, coabitam uma matriz antiga e uma projeção de futuro, pois nota-se o cuidado dispensado para que Évora alcance «os melhores padrões de qualidade de vida», sem perder identidade. Quem vagueia pelas suas rotas internas, percebe que isso será impossível, já que nenhum pormenor é deixado ao acaso. E deve ser, também, por essa razão que me sinto sempre tão bem a deambular por cada trilho: porque a essência e a hospitalidade caminham de mãos dadas. Privilegiando uma vasta agenda cultural e infraestruturas que priorizam o «bem-estar dos seus habitantes», há uma harmonia diferente no ar. Há vida. Há conforto. E há um profundo desejo de conhecer e descobrir mais. Por isso é que, depois, renasce a vontade de não partir. Ou, então, de retornar na primeira oportunidade.

A planta da cidade fecha-a em três muralhas sucessivas. Apresentando um traço irregular, com casas baixas e brancas, vemos edificações e parques urbanos a coexistir, possibilitando uma imagem singular e facilmente reconhecida em qualquer canto do mundo. Assim, partindo da Igreja de São Francisco e da Capela dos Ossos, fiz uma paragem no Jardim Público. E, posteriormente, passei pela Igreja e Convento da Nossa Senhora da Graça, pela Praça do Giraldo, onde se encontra a belíssima Igreja de Santo Antão, pelo Templo Romano [também apelidado de Templo de Diana]. E, aqui, parei para absorver a energia de cada detalhe, num final de tarde comovente e inesquecível.

O meu olhar focou, ainda, as linhas da Biblioteca Pública, do Museu Nacional, da Pousada dos Loios, da Sé Catedral, da Casa Cordovil, da Igreja do Senhor Jesus da Pobreza, do Quartel dos Dragões de Évora e de mais uma série de espaços que clamam pela nossa atenção. Porque valem completamente a pena. Por entre ruelas e calçadas, senti o enlaço. Uma brisa suave. Um abraço. E o aconchego que apenas o Alentejo, em todas as suas ramificações, consegue dar.

Évora é uma cidade-museu. É um segredo que todos podemos - e devemos - desvendar. Porque a sua riqueza cultural e patrimonial é sublime. Certo dia, disseram-me que é um local que se vê rapidamente. E eu ri-me. Embora não tenha um centro histórico megalómano, é para ser explorado devagar. Com calma. Para sermos capazes de compreender o seu verdadeiro fascínio. Portanto, o conselho é mesmo demorar. E deixarmo-nos levar pelo ritmo que nos impõe. Sem pressas. Um pedaço do meu coração ficou por lá. Mas não pretendo reclamá-lo. Porque quem vem nunca esquece. Só espera poder regressar.

Já estiveram em Évora?