(...) «Um dia o pão e as batatas faltaram de todo em casa. Comer de grilo. Não havia quem fiasse, devendo já quinze alqueires ao padre Claro e vinte e cinco tostões ao filho, afora os pequenos empréstimos a tutilimúndi. Estava um Inverno rigoroso e os rebanhos não saíam ao pasto, ficando a roer nos estábulos o feto seco de Primavera, de mistura com coanhos de centeio, quem tinha para lhos deitar. Caía neve e, pelos cômoros, mal se avistavam uns arrepios de erva que as ovelhas paridas, molhadas pingando e balindo, iam espontear, de relance, sob a chibata do pegureiro. Vezes a fio, apresentou Joana à sua gente caldo de hortelã-pimenta com duas areias de sal. O Cleto acabou por praguejar e o Zé, com a ira, por partir a malga no chão. A mãe voltou-se para ele, em voz de sarcasmo e ao mesmo tempo de dor:
  -- Olha, se queres ser regalão vai ganhá-lo. Onde não há, el-rei o perde!
Amarelos como a cera melada, os meninos berravam por todos os foles que tinham fome.
(...)
Joana, perante tanta miséria, vestiu-se dos melhores farrapos e deitou-se a Longa debaixo de neve. Havia muito que lá não punha pés, desenganada da vila como a vila estava olvidada dela, pobre e sem graças.
Ao anoitecer, os pequenos saíram-lhe ao encontro, com o faro nas bolas-milhas, que sempre lhes trazia para regalo, compradas no padeiro; a mãe sacudiu o avental, a chorar:
  -- Não vos trago nada, meus filhos!
O Cleto jungiu os ombros:
  -- O Loba mandou-te à tabua...! Não era de esperar outra coisa de semelhante macacão...
De porta em porta, ai tio, ai tio, bateram à do mestre-escola, diabo de homem que não ia à missa nem se confessava. E, contra a expectativa, encontraram ali uns tostões. Nesse dia, comeram batatas com azeite e pão de rala. E, mais comunicativo que de costume, o Zé declarou que a porca da vida assim ia mal, que partia a assentar praça se não arranjasse passagem para o Brasil.
  -- Para o Brasil! -- exclamou Joana. -- E que vais lá fazer? Tu não te domas ao trabalho!
O filho, que estava em hora de ternura, melindrou-se e desabridamente retorquiu:
  -- Vá para um raio!
A mãe rompeu em grande berreiro. Mas, conciliador e patriarcal, o Cleto puxou do açafate, em que haviam sobejado migalhas, para o meio da família. E sobre ele, descoberto à benção da casa toda, louvou ao Senhor:
  -- Infinitas graças e muitos louvores devemos dar a Deus por tão altos benefícios: padre-nosso...
  -- Hás-de ir parar a uma cadeia, cão! -- resmoneava Joana. -- Se alguém tem uma linguagem destas para os pais... Safado!
(...)
  -- ...bem diz a mulher do Andrade! Inda hás-de sair aos caminhos...» ...
                                                                      (continua)

Tutilimundi toda a gente.
Regalão folgazão, glutão. felizardo, nababo, fidalgo, ocioso.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

jungir

n verbo 

 transitivo direto e bitransitivo 

1 promover a junção de; juntar, unir, ligar

Ex.: <j. idéias desconexas> <j. a teoria à prática>

 transitivo direto e bitransitivo 

1.1 emparelhar (animais) por meio do jugo, ligando-os a veículo ou máquina agrícola

Ex.: <j. cavalos> <j. os bois ao arado>

 transitivo direto e bitransitivo 

2 submeter através da força; agrilhoar

Ex.: <j. nações> <j. ao arbítrio de um déspota o destino de um povo>

 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"