A escritora Jamaica Kincaid (reprodução)
Inédito no Brasil, romance de Jamaica Kincaid se passa na ilha caribenha de Antígua e Barbuda
Matheus Lopes Quirino
Quando Xuela deita em sua cama, no quarto da casa do pai, o dourado Alfred, ela escuta as ondas quebrarem nas pedras da encosta. Sobre a calmaria daquela noite, uma descrição idílica transporta os ouvidos do leitor a Antígua e Barbuda, ilha caribenha pouco explorada (na literatura, ao menos). O assombro quase espectral do silêncio traz ruídos dos animais que se arrastam, do caldeirão que ferve na fogueira, das ondas “que lambem os rochedos da costa”, descreve a narradora.
Ao discorrer sobre colonialismo, escravização dos povos nativos da ilha caribenha de Antígua, o racismo estrutural que é latente na vida de seus conterrâneos, Jamaica Kincaid expõe as contradições do pai, que é fruto de uma união de europeu com africana, e da mãe, nativa da ilha. Ao descrever seus retratos ela não ignora um único cabelo vermelho do pai, e como esse fenótipo influencia seu julgamento. Seu pai é um personagem de várias faces. Ora sua maior influência, ora o retrato da derrota. Ela o escrutina e tenta descobrir mais de si a partir do genitor.
Em A autobiografia da minha mãe, a escritora e professora de literatura africana Jamaica Kincaid, célebre colaboradora do periódico underground The Village Voice e da The New Yorker, concentra buscas na reconstrução da identidade da personagem por meio de reminiscências, episódios dramáticos que marcaram sua vida e superstições. Xuela Claudette Richardson, faz uma viagem em torno de si e conclui: “O nome de uma pessoa é ao mesmo tempo sua história recapitulada e resumida”. Assim, movida por esse senso crítico genealógico, ela revive também as angústias dos seus pais.
Uma espécie de magia ancestral guia a protagonista, que têm uma sina: reconstruir a persona da mãe. É uma busca incessante, intermitente e meticulosa. A personagem que perdeu a mãe no nascimento sonha quase todas as noites com uma espécie de figura materna, em que só os calcanhares são vistos. Se Aquiles fosse, como no mito grego, estaria ela condenada a uma vida às sombras da mãe, em que a simples lembrança de seu nome a colocaria em desespero. Entretanto, a mãe, uma das sobreviventes dos índios caraíbas, é sua força motriz. Xuela sabe manipular a melancolia. Ela conduz suas memórias fragmentadas ao longo da vida, tentando montar uma espécie de quebra-cabeças.
O interessante na narrativa é, mesmo já anciã, como a sempre menina dá as caras. Ela realiza uma espécie de psicanálise de si, trazendo à tona fatos da infância para comprovar suas teorias. Nessa seara, das primeiras, segundas e terceiras infâncias. Período decisivo em sua vida, ela soube se defender desde cedo, pelo silêncio, das investidas da madrasta que a queria matar. Do colar não usado para se precaver do feitiço, quando ela vê o cachorro da família fenecer em um dia, logo após o animal usar o adereço. Outras tantas investidas da inveja dos que queriam apagar Xuela do mapa são sustadas por uma espécie de aviso do mundo dos mortos. Ela está em constante contato com as lendas da Ilha em que vive, a morte ronda e Xuela prefere se recolher. Aprende com ela.
Ponderando superstições com planos para sobreviver, jogar-se no mundo de fato, logo no começo de “A autobiografia da minha mãe” ela tem um encontro marcado com a solidão: “Era o mais simples dos mais simples dos quartos, mas tinha mais luxo do que eu jamais havia imaginado, me propiciava algo que eu nem sabia que precisava: me propiciava solidão”, escreve a autora. De fato, a solidão, em matéria de habitat para um escritor, proporciona um manancial de sabedoria. Influenciada pelos precursores do Bildungsroman, Jamaica Kincaid conduz sua personagem, literalmente, pela estrada da vida. Como quando sai da casa de Madame LaBatte depois de provocar um aborto, ainda jovenzinha.
Xuela Claudette Richardson tem traços biográficos de sua autora que se chama Elaine Cynthia Potter Richardson. Com a ida aos Estados Unidos, onde mora desde os 17, Jamaica Kincaid escolheu este pseudônimo para assinar seus livros. Hoje, ela mora em Vermont, dá aulas na Universidade de Harvard e seu nome aparece, anualmente, sempre na lista dos cotados para o Prêmio Nobel de Literatura. Nascida em St John, Antígua, tornou-se uma das vozes mais críticas do colonialismo, do racismo de sua geração. Farol para uma geração de escritores afro-americanos e afro-latinos, Jamaica Kincaid toca na diáspora racial sem, necessariamente, escancará-la. A sobrevivência, em seu romance, também é sinônimo de beleza, e vice-versa.
Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino