![]() |
| Fotografia da minha autoria |
«A arte de contar histórias»
Os livros não se medem aos palmos. O ditado tem outro sujeito, mas adaptei-o, porque acredito que é possível tecer uma narrativa com poucas palavras: as necessárias para emocionar. Além disso, por mais que o meu coração pertença às letras e aprecie perder-me nestas viagens escritas, prefiro quando não se enredam em descrições que apenas provocam ruído, pois sinto que, assim, se foca a mensagem em todo o seu esplendor.
Na minha caminhada literária de 2022, cruzei-me com livros relativamente pequenos, mas cujo impacto é de extrema importância pelos temas que abordam, já que são vitais para o ser humano e para o seu crescimento. Deste modo, para não correr o risco de revelar em demasia, estragando a experiência de leitura de terceiros, optei por compilá-los no mesmo segmento, transmitindo o que me fizeram sentir, mas sem desvendar tudo.
São, ao todo, seis magníficas obras, que aconselho pela pertinência, pela magia e por nos enriquecerem.
AVENTUREIRA MARIELLE E O DIA DA FOTOGRAFIA, NUNA

Uma história encantadora, que se lê num sopro, mas que transmite uma mensagem importantíssima sobre aceitação, inclusão e amor próprio. Há características que contam parte da nossa história, mesmo que não nos definam por inteiro, por isso, é essencial sentirmo-nos representados. Porque é uma forma de quebrarmos barreiras e preconceitos; e porque é, também, uma maneira de as pessoas sentirem que as suas ideias, valores e inseguranças são válidos e partilhados por tantos outros. Pode ser um recurso de trabalho valioso.
PARDALITA, JOANA ESTRELA
TW: Referência a divórcio e suicídio
Arrisquei nesta banda desenhada às cegas, sem saber o que esperar, e fui surpreendida por uma história cómica, comovente e com um tom leve, que nos centra em questões importantes. Com imagens de uma beleza extraordinária [quer ao nível da ilustração, quer ao nível dos cenários para os quais nos transportam], acompanhamos uma viagem de autodescoberta, com todas as dúvidas, inseguranças e borboletas na barriga que a caracterizam. Fiquei com vontade de ler mais, porque a autora tem uma escrita bonita, fluída e direta.
A RAINHA DO NORTE, JOANA ESTRELA

TW: Depressão
Joana Estrela, partindo da lenda das Amendoeiras em Flor, escreveu uma história sublime sobre a depressão. A narrativa é célere, com algumas repetições que nos transmitem esperança, e com ilustrações lindíssimas. E, mais importante, alerta-nos para a necessidade de escutarmos o outro, de reconhecermos que precisamos de ajuda e de sermos acompanhados pelos profissionais mais indicados. Rendi-me por completo a esta obra.
A MINHA MÃE É A MINHA FILHA, VALTER HUGO MÃE

A crónica é antiga, mas só agora, que se transformou em livro, é que a descobri. E fiquei enternecida com o amor que carrega nas suas palavras. Valter Hugo Mãe é um dos meus escritores-casa, porque tem uma capacidade fascinante para criar cenários ora envolventes, ora surreais; e porque há sempre poesia naquilo que escreve. Esta obra não é exceção. Aliás, é na simplicidade do conto que encontramos o que há de mais belo na relação com o outro. Esta narrativa é uma clara homenagem à mãe, mas também é uma maneira de valorizar - e dar destaque a - todos aqueles que assumem o compromisso de cuidador. O caminho nem sempre é fácil, mas há memórias que compensam tudo o resto, uma vez que espelham os sentimentos mais puros.
A CONTRADIÇÃO HUMANA, AFONSO CRUZ

O olhar atento do narrador, uma criança bastante curiosa, mostra-nos as contradições que nos habitam. E, com humor, ironia e astúcia, faz-nos refletir sobre as dicotomias da nossa existência. Recorrendo a alguns jogos de palavras, a ilustrações encantadoras e a diferentes tamanhos e estilos de texto, envolve-nos nestes contrastes, que parecem tão óbvios, mas que, no entanto, se revelam sempre uma surpresa. Além disso, é uma obra excelente para aguçar o pensamento, para despertar a vontade de olharmos para dentro e para nos deixar mais interessados em relação ao que nos rodeia e aos comportamentos que tendemos a alimentar de uma forma quase mecânica. É um livro encantador, ideal para miúdos e graúdos, bem ao estilo de Afonso Cruz.
PARA QUE FIQUE BEM ESCURECIDO, SANDRA BALDÉ

TW: Racismo, Bullying; Referência a Abusos Sexuais
Um livro extremamente necessário, que é tanto uma denúncia, como uma carta de amor: próprio e a todas as mulheres negras. Através da protagonista Kadi, Sandra Baldé explora questões como a tentativa de aprovação, a vulnerabilidade, a segregação, o feminismo branco, a representatividade, o ativismo e a identidade que vai sofrendo metamorfoses ao longo do tempo e das circunstâncias - mas há muito mais dentro das suas palavras; dentro das entrelinhas de uma realidade que continua condicionada pela sociedade. É um relato bastante honesto, que nos transporta para problemas raciais e feridas sociais e que impulsiona a empatia. Esta obra nasceu de um sonho. E, por ser um manifesto tão pertinente, permitirá que outras mulheres ergam a sua voz.
