Porque ele é o terceiro momento marcante da literatura moderna no Brasil. O primeiro é Manuel Bandeira, contra o abuso do verso feito pela escolástica parnasiana. Bandeira areja a poesia em novos ritmos que o verso, agora despregado do antigo molde, desfralda em bandeira. O segundo é João Cabral na luta contra as amarras da convenção poética, optando por um rigor formal para devolver ao verso seu vigor constitutivo. O terceiro momento é Osman Lins, que vai fazer o texto de prosa recompor com a poesia, tornando tênue, senão falsa, a fronteira entre ambas – a poesia livre que irrompe a cada instante, no dizer de Antonio Candido. O texto de Osman é antes de tudo, poético – tenta dar a ouvir a secreta melodia (sustenida) existente por entre as dissonâncias do real.
Porque o filme de Guel Arraes, Lisbela e o prisioneiro, trouxe o grande público para mais perto de Osman Lins. E Pernambuco redescobriu, com surpresa e satisfação, um grande escritor. No entanto, esse público entrava por uma porta lateral: a melhor produção de Osman Lins está em Nove Novena, e em Avalovara. (O grande escritor argentino Júlio Cortázar dizia que se tivesse escrito Avalovara, não precisaria escrever por mais vinte anos). Não é Osman Lins um escritor de amenidades mas um modelo de escritor engajado: na e pela literatura, no compromisso com a forma – sem maiores concessões. Talvez em situação similar à de Julien Gracq, na França : sem alardes, um clássico desde cedo. As qualidades mais valiososas de um livro são como que secretas e se revelam aos poucos, sempre com parcimônia (Avalovara. SP: Melhoramentos. 1973.p39). Osman conjugava, num modo feliz, experimentação e corte clássico. E, tendo assim, driblado magistralmente, os dois riscos da literatura moderna: a) a do formalismo, pelo extremo da experimentação que finda por desaguar no abstracionismo; b) a de certo naturalismo jornalístico que beira a propaganda ideológica. Há, em Osman Lins uma deliberada exigência com as palavras de luta (Eduardo Galeano). O interessante em Osman é manter o interesse romanesco, ao mesmo tempo em que revona técnicas e convenções estilísticas. A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres (Avalovara. SP: Melhoramentos. 1973. p261).
Porque ele respondeu, superando, a proposta do romance francês. As coisas, tema privilegiado da narrativa francesa para exorcisar o excesso de psicologismo do romance tradicional, adquirem em Osman Lins uma carga de poeticidade incomum. Como quando o narrador, no conto O pássaro transparente, interroga as mãos da amada, aquela que desprendeu-se de todo supérfluo para seguir a arte, e as contrapõe com as suas, afeitas às posses: Ela amestrou as mãos de sua juventude, fez com que lhe pertencessem. Quanto a mim – estas, cautelosas, quase sempre fechadas, não sei que sutil e laborioso processo as engendrou – em que armário do tempo, em que espessa noite de interrogações perdi as minhas? (Nove, novena. Rio: Guanabara, 1987.p. 20). O leitor deduz, pelo viés poético, o intuito de Osman em mostrar as mãos enquanto raízes da alma. Lição antiga, a de que todo apego nos define. Tento construir, obedecendo a uma estética rigorosa, um mundo rebelde, imaginário, única maneira a meu ver de sondar as profundezas do real.
Porque ele fazia distinção entre a seriedade da literatura, na dedicação diuturna ao ofício da escritura, e a da sisudez acadêmica, que faz parecerem, os teóricos, teólogos arrogantes. Osman não rejeita o rigor, mas refuta o terrorismo das teorias, que findam ateando mais lenha à fogueira das vaidades literárias, quase sempre, de brilho breve – que seduzem, mais que norteiam. Talvez seja só a homenagem que a fumaça presta à chama. Osman não é menos um escritor visceral: longe da comédia in litteris, tão comum ao meio, entre literatos hábeis e enganosos, ele concebe a literatura como um empreendimento espiritual que poderá vir a ser -- e espero firmemente que o seja – fecundo para os meus semelhantes. (Escreveu isso em 66, num documento para o Banco do Brasil, que nunca entenderia a gravidade de um tal projeto). Quando, nos idos de 70, um crítico louvava as frases, as palavras de Clarice Lispector, ela fica desapontada: havia escrito para dizer alguma coisa. As palavras não estavam ali como mero jogo verbal. Nenhuma, mas nenhuma mesma, das palavras do livro foi jogo, dizia Clarice, resistindo à redução de seu propósito a mero brilho verbal -- quando o que ela pretende é aderir ao que existe por meio de um visão total das coisas (Jornal do Brasil. Crônica. Fev/70). Osman participa desta exigência de quem se contrapõe ao caos, sempre mais próximo, criando, com resistência e rigor, uma alegria mais intensa que satisfação.
Porque para ele o trabalho da literatura era um trabalho do homem sobre si mesmo, para esconjurar o absurdo buscando a alegria. Escrever: um contínuo ato de amestramento e descoberta. Em dado momento Osman diferencia os escritos cursivos, dos de bordejar. Aqueles trazem informes já previamente sabidos; estes, os de bordejar, que definem a escrita de Osman, são aqueles nos quais o escritor avança e descobre, revela-se, devassa territórios que desconhecia, podendo suceder-lhe, durante a realização da obra, chegar a evidências e surpresas que lhe ameaçam os alicerces da vida. (Guerra sem testemunha. Martins. SP. 1969). A alegria de viver deve ser uma exigência que se sente como perfeitamente absurda e indefensável; no entanto, há os que creem na literatura enquanto uma possível reserva de sentido. E creem poder juntar à alegria – o sal sempre necessário – alguma lucidez. É o que faz o diferencial da prosa de Osman Lins.
