Enquanto as palavras voltam lentamente, como ovelhas assustadas pelo rasgar destruidor de um trovão, eu espero o seu retorno com a paciência de um pastor que, em meio à escuridão do mundo, só pode rezar para que elas saibam o caminho de casa. Acabo me ocupando com tarefas correlatas, como escanear as pilhas de material inédito que possuo e, assim, ganhar espaço . E redescubro dezenas de fatos do passado, alguns que eu preferia esquecer, outros que dá um certo orgulho em retomar. Também encontro uma quantidade significativa de fichas de RPG, esboços de campanhas, contos e livros iniciados e nunca acabados e, em especial, uma nada desprezível quantidade de textos bons, quase todos anteriores às oficinas literárias. Não ficarei no passado, este material é somente para consumo e estudo interno, mas está sendo interessante encontrar um outro Gustavo que eu imaginava perdido entre as caixas.
Mas também achei mistério. No caderno de Língua Portuguesa da 08a série, um pequeno envelope que nunca abri, provavelmente por que não o encontrei. Preso entre as folhas, está um envelope amarelo, com nenhuma indicação de quem o deixou entre os meus pertences. Dentro do envelope, um papel preto e, escrito com caneta cinza, o poema. Irei transcrevê-lo:
Tempestade
Descansas tranquilo
Imponente
Eterno enigma
E não me vês
Ao longe
À espreita
Observando.
Enfim o momento
Um sopro
Tensão
Apenas um raio
E te encontro.
Para o meu oceano
Com amor.
Tentei escanear de todos os jeitos para colocar aqui no blog, mas a escolha do material impossibilita esta tarefa: mal é possível ler as palavras. Acredito que a tinta da caneta cinza era mais luminosa na época em que ele foi escrito, mas, passados 22 anos desde a oitava série do primeiro grau, o cinza ficou esmaecido. Mais alguns anos e provavelmente não será mais visto, engolfado pelo preto que lhe cerca. Não deixa de ser inteligente um poema capaz de se consumir no abismo da sua própria forma.

Evito a curiosidade de saber quem foi a sua autora, ou o seu autor, se era minha colega ou não. Não adiantaria de nada, seria a típica curiosidade inútil. Nada da minha vida ou das minhas escolhas mudaria com este conhecimento. Provavelmente quem o escreveu – assim como eu – seguiu com a sua vida, realizou ou não o seu destino, possui uma circunstância de vida que a descoberta tardia deste poema pode acabar embaraçando. É um ato de piedade que ele continue sendo o que ainda é: uma poesia feita em um certa época da vida que foi descoberta em outra. E nada mais.
O que realmente me impressiona é a qualidade do poema, a beleza do seu formato singelo, quase um haikai. Não existem palavras descartáveis. As imagens são adequadas, exatas. A forma é quase agressiva de tão sintética. Cada verso é usado com a máxima força de significação, como se fosse uma facada. A poesia não sai da forma derramada com que éramos acostumados a escrever; a pessoa que o redigiu tinha suficiente domínio formal para escapar da tentação das imagens simples. Não só isso, a poesia tem um duplo significado: ao mesmo tempo em que se refere a um homem, ela também pode tratar do oceano. O raio não pode amar o oceano onde se despeja de forma carinhosa, o trovão não pode ser um grito para chamar a atenção das águas amadas e indiferentes?
Não me recordo de ter conhecido no colégio alguma pessoa que tivesse tamanha capacidade poética. Seja lá quem fosse, era suficientemente discreta para manter esta habilidade em segredo. Ou talvez eu estivesse cego pelas circunstâncias ou meus sensores não estivessem tão calibrados: a oitava série foi um período de especial turbulência (quem estava lá sabe exatamente do que estou falando), e as lutas foram tão intensas e cobraram preços tão altos que não é impossível que a realidade estivesse diante dos meus olhos e eu nem suspeitasse.
Mas também existe uma outra possibilidade, e é para esta que rendo o meu elogio. Talvez a poesia tenha surgido como um gêiser no meio do coração de alguém que não soubesse lidar com ela. Talvez a inconformidade, a indiferença e a minha cegueira tenham contribuído para alguém usar palavras para tentar me atingir e quebrar a resistência. Em um gesto de desespero, usando palavras como se fossem pedras, alguém tentou abrir meus olhos. E o plano acabou falhando, pois não descobri a poesia. E a pessoa pensa que eu a li e a descartei, talvez arrependendo-se do impulso que a levou a escrever.
No passado, os poetas se diziam bafejados pelas Musas. A inspiração divina era a regra. Sempre fui um descrente desta possibilidade. Sou mais prático e sigo a proporção clássica: um texto é 10% inspiração e 90% transpiração. No entanto, ao descobrir esta espantosa poesia, sinto um certo desconforto ao concluir que qualquer pessoa pode descobrir o veio de ouro do bom texto. Basta ser colocado em circunstâncias anormais de pressão e de necessidade de comunicar um sentimento que a poesia pura e forte pode aflorar. Este é objetivo principal da poesia: usar o eu do poeta para atingir o eu do leitor, fazer o sentimento sair de uma pessoa e invadir a outra. Questiono o meu convencimento: boa literatura pode sair da inspiração, pode lograr a transpiração e apresentar-se tão imaculada como no dia em que foi concebida.
Outra característica que identifico com a boa poesia é a sua possibilidade de ser metapoética. Em um momento de vida que luto com o sumiço das necessárias palavras, é consolador imaginar que elas podem estar nas nuvens sombrias do horizonte, ansiosas para voltar a me encontrar, observando o meu esforço de aproximação, mas sabendo que precisam dar um tempo de silêncio para voltar a falarem com o meu espírito.
Não sei quem foi a pessoa que escreveu a poesia. Seja lá quem for, saiba que foi um excelente trabalho. Apesar dos 22 anos que levei para receber a mensagem, saiba que ela chegou na hora exata não para mudar a minha vida, mas para mostrar que as Musas possuem desígnios e artíficios que não cabem aos humanos questionar.
Um sopro debaixo de nuvens tempestuosas também é esperança. Às vezes, alguns oceanos correm na direção dos raios.

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo