![]() |
| Fotografia da minha autoria |
«Uma paixão começa sempre com uma certeza.
Mas nunca sabemos como acaba»
O meu voo literário pode ser longo, mas preserva um ninho ao qual regresso sempre. Porque eu vou, deambulo em novas histórias e autores, mas volto onde sou feliz, até pelo traço familiar e empático. E há muito que estabeleci a minha zona de conforto, pois acrescenta-me, mesmo sem me apresentar desafios novos. Além disso, apazigua qualquer frustração. E auxilia em momentos de bloqueio. Margarida Rebelo Pinto é uma das minhas bases. E foi uma das primeiras escritoras a fomentar esta minha paixão pelos livros. Por isso, nunca lhe largo a mão.
Vem Voar Comigo divide-se em três vozes principais, de três personagens femininas, que procuram uma segunda oportunidade no amor. Atendendo a que vivemos num presente tão centrado na satisfação imediata, a sociedade aparenta um certo receio do compromisso. Porém, as protagonistas pretendem quebrar essa imagem de comunidade líquida e bastante esquiva, uma vez que acalentam a esperança de sarar as feridas, curar o coração e entregarem-se nos braços de uma relação que lhes transmita paz, segurança, estabilidade e futuro. Inês, Maria e Beatriz têm personalidades distintas e modos de encarar a vida particulares. No entanto, perante a maturidade da idade e do espírito, partilham a mesma inocência no que concerne aos sentimentos. Porque, apesar dos desgostos, não estão prontas para desistir.
Nesta narrativa também há espaço para as figuras masculinas, que acabam por nos mostrar o seu lado dos factos e as perceções que vão desenvolvendo nas mais diversas situações. Inclusive, há um confronto de identidades. Há pontos de rutura. Fragilidades. E uma necessidade visceral de mudar - de dentro para fora, sobretudo - e de encontrar um refúgio neutro e isento de memórias. Através de uma escrita leve e descomplicada, percebemos que esta jornada é morosa, mas que não tem que ser envolta numa carga emocional angustiante. Quando nos magoam ou desiludem, existem recaídas. Ainda assim, precisamos de descobrir forças para seguir em frente. Porque há amores que se esfumam, enquanto outros se eternizam, mesmo quando as relações terminam.
A autora, com o estilo que a caracteriza, abordou temáticas como a traição, a saudade, os desencontros amorosos, as ligações fugazes, as inúmeras etapas de um coração despedaçado e os diferentes tipos de amor. Em simultâneo, centrou-se na figura da mulher moderna: independente, emotiva, confiante, exigente e polivalente. E retratou a nossa evolução enquanto ser individual e social, espelhando o modo como nos analisamos e aquilo que acreditamos merecer. Nesta travessia do deserto que, por vezes, nos faz sentir no limbo, entendemos o quanto a rotina nos pode desgastar. E que uma relação só se mantém firme se existir, de parte a parte, comunicação sem tabus, otimismo, sinceridade, paixão, serenidade, humor, confiança, admiração, entendimento físico, desejo e capacidade para olhar e lutar para o mesmo fim - tal como revelou Margarida Rebelo Pinto numa entrevista.
Vem Voar Comigo é um romance profundamente relacional, que nos desperta uma identificação imediata, pois representa pessoas como nós, que podiam fazer parte do nosso núcleo mais íntimo. Além do mais, ensina-nos que o essencial é a intensidade com que vivemos as experiências que nos invadem e não tanto a sua durabilidade. E simboliza uma mensagem que, para mim, é imprescindível: temos, incontornavelmente, que nos mover pelo amor. E movermo-nos com alma.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«O amor torna-nos mais fortes, mais leves, empresta-nos poderes de super-herói» [p:13];
«Há pessoas que valem a pena ser guardadas [...] No fundo, nem somos nós que escolhemos, são os outros que acabam por desenhar o seu lugar na nossa vida» [p:30];
«Às vezes, o amor não acaba por falta de amor. Às vezes, acaba por falta de coragem. Um dá tudo e o outro hesita. Um sonha e o outro não acredita. O medo é o maior inimigo da vontade, e como vontade e amor são a mesma coisa, o medo é o maior inimigo do amor. Mas o pior nem é isso. O pior é o tempo que uma relação demora a apagar-se. As relações doentes não morrem logo; ficam-se por ali a definhar como uma árvore morta que ninguém teve força para arrancar» [p:63];
«Ainda estão abraçados, num céu qualquer, que é o lugar secreto das paixões que nunca morrem» [p:115];
«Não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos. Eu estava ali de coração aberto, pensei que ele também estava» [p:217].
Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥
