Fotografia da minha autoria

«Tenho o hábito de olhar para a vida através dum vidro...»

A Feira do Livro do Porto, para além de acontecer num dos meus locais favoritos da cidade - os Jardins do Palácio de Cristal -, é palco de infinitos mundos e histórias, que me transportam e que me fazem sentir em casa. Todos os anos regresso. E sempre com objetivos distintos. Na edição de 2018, procurei usufruir mais das promoções, aumentando a minha biblioteca. Mas também fui com o intuito de, na despedida, desfrutar de um evento que considero o expoente máximo de generosidade entre o autor e o leitor: a apresentação do seu livro.

Miguel Araújo é, para mim, um dos mais inspiradores cantautores nacionais. As letras dos seus temas têm traços distintos, visões simples e a transbordar significado. E é esta genialidade, esta simbiose com as palavras, que nos desarma e nos envolve. Por isso, a passagem da música para a literatura - que tantas vezes caminham no mesmo compasso - foi bastante natural. Além disso, conseguiu estabelecer uma ponte entre o papel e a realidade. Penas de Pato é a sua primeira obra. E em cada uma delas escreveu contos, memórias, crónicas e histórias com várias camadas, aliando o homem e o profissional e demonstrando que, tal como ele, todos nós somos mais do que um rótulo. Somos milhares de facetas em maturação.

Há, neste livro, um certo alheamento da vida. Um breve distanciar das questões fraturantes, em oposição à constante aproximação dos detalhes, das particularidades que parecem escapar à maioria. Porque não consideramos apenas os grandes problemas da humanidade, também nos concentramos nos pormenores do quotidiano. E é no centro desta dicotomia que avançamos. Assim, o artista foca-se nos lugares que, um dia, foram nossos. Nas memórias que se sucedem. Nas pessoas do Porto. No seu propósito. Nos nomes dos cafés. Na bata azul. No berlinde. E em muitos outros aspetos que comprovam a nossa individualidade, atendendo a que tudo nos marca de maneiras muito particulares. Em simultâneo, somos abraçados por Pequenos Contos de Cordel, de uma subtileza ímpar, que evidenciam o seu lado descomplicado, criativo e camaleónico.

A sua abordagem próxima, poética e plural leva-nos, ainda, a refletir sobre a incoerência, sobre a pressão para o civismo, sobre a nossa moralidade, sobre a nossa família, sobre a tentativa de não ficarmos demasiado aquém e sobre o poder que julgamos possuir para colocar algo em causa. E há, sobretudo, a preocupação de contar os factos como eles são, sem procurar impor uma opinião. Mesmo quando partilha a sua, fâ-lo com integridade e humildade, não nos forçando a assumi-la como uma verdade absoluta, até porque não compactua com essa postura. Priorizando um olhar fascinante sobre a vida, ficamos a conhecer uma série de singularidades pessoais. E não posso deixar de referir o quanto adorei a Carta à minha filha, Sampa e a dedicatória aos AZ

Nestas Penas de Pato há uma sensação de aconchego forte, uma vez que os seus textos transparecem muita honestidade. Além do mais, parece que estamos a assistir a uma conversa de café, onde se «desvia a câmara dos protagonistas para se focar os figurantes». Quando observamos a vida a passar da varanda, há um mundo que se torna somente nosso. Há um desbravar de perceções e situações. E há um compromisso com tudo aquilo que fica, muitas vezes, arrumado em segundo plano. Porque o nosso horizonte é sempre mais extenso quando estamos atentos e nos permitimos sonhar e ser surpreendidos.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Já eu, quando cheguei à Sala das Joaninhas, encontrei um ecossistema perfeitamente estabilizado, assente em milénios e milénios de harmonização e auto-ajuste. Grupinhos feitos, crianças a brincar e a rir, e eu, o forasteiro» [p:19];

«Eu vou tão longe quanto afirmar que essa grosseria é o que caracteriza a hospitalidade portuense» [p:39];

«O que nos é familiar vem-nos deformado pela proximidade, vem em forma de espelho» [p:65];

«A vida é mesmo assim. Vai pegar em ti e levar-te para onde achar que lhe fazes mais falta, onde sentir que lhe fazes mais diferença. O sentido da vida é esse, é a pessoa deixar-se ir» [p:86];

«E fiquei a pensar que é preciso ter cuidado com o mal que se entorna sobre o mundo: nunca se sabe o bem que de um gesto desses poderá advir» [p:131].

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