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| Fotografia pessoal |
«Livros são almas aprisionadas até que alguém os tire
de uma estante e os liberte»
A minha mente divaga. Fragmenta-se em infinitos pensamentos, com várias ramificações por dentro. E a destreza - ou a urgência - de atribuir uma forma às palavras tornou-me mais ampla, quando comecei a ler com regularidade. Porque a literatura abre portas. Constrói pontes. E alimenta um inegável mundo de realidades paralelas, permitindo-nos explorar registos distintos e compreender quais se adequam mais ao nosso dialeto. Eu encontrei o meu. E sei que permaneço no lado certo da margem, navegando e regressando quantas vezes pretender. Porque há uma casa onde poderei sempre estabelecer morada.
O colo de um livro é amor em estado puro. E, para além de o sentir a cada nova leitura, aprendi a celebrá-lo em qualquer pretexto, porque conversar sobre esta paixão, partilhando-a, nunca será um exagero. Portanto, no final do ano transato, comecei a idealizar um desafio simples, mas extensível à comunidade livrólica - com blogue ou outras plataformas de criação de conteúdo -, para comemorarmos uma data tão importante: o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, criado pela UNESCO, em 1995, com o grande objetivo de «promover o prazer da leitura e o respeito pelos livros e pelos seus autores». Ciente desta premissa maravilhosa, ponderei bastante. Elenquei passos e reorganizei estratégias. Para, assim, definir uma iniciativa que me encheu as medidas, deixando-me bastante entusiasmada para lhe oferecer asas e a fazer chegar a pessoas que têm uma admiração literária semelhante.
A sinopse não tinha como enganar: Mudas de casa. E na tua estante nova só tens espaço para ter quatro autores e três livros. Quais escolhes? E foi com esta inocência que nasceu a Estante Cápsula, cuja missão consiste em levar-nos a observar as prateleiras da nossa biblioteca [física, digital ou emocional], refletindo sobre os nossos autores favoritos e os livros - de escritores diferentes - que nunca seríamos capazes de abandonar. Naturalmente, é um exercício hipotético, porém, acredito que nos auxilia neste processo de consciencialização. Além destes dois capítulos, reuni sete perguntas de bolso, para dinamizar um pouco mais a publicação e torná-la parte da nossa essência.
Como só fazia sentido ser uma celebração conjunta, estou muito bem acompanhada. E o meu agradecimento é infinito, porque significou imenso receber tantas respostas positivas. Não duvidem, reforçaram aquilo que, para mim, a blogosfera tem de melhor: a interação. E a possibilidade de sermos um vínculo em forma de livro. O mundo envolve-nos de histórias. E as nossas estantes conquistaram uma voz-abraço.
// ESTANTE CÁPSULA //
Miguel Esteves Cardoso
O meu compromisso com a leitura revelou-se tardiamente, mas houve um nome que me marcou muito cedo, através das suas crónicas intemporais, relevantes e transcendentes, atendendo a que o MEC tem um estilo de escrita mordaz, camaleónico, com um jeito único de se apropriar das palavras. Em simultâneo, tem a capacidade de analisar os detalhes que passam despercebidos à maioria dos comuns mortais, elevando o seu impacto. Por esse motivo, para onde eu for, as suas obras terão sempre lugar na minha casa. Porque é uma referência. Porque não precisa de muitos floreados para nos fazer chegar ao seu ponto de vista, levando-nos numa viagem reflexiva. Porque tem o dom de equilibrar o sarcasmo com um traço mais intimista. E porque me impulsiona a alargar horizontes, privilegiando a vontade de escrever sempre mais e melhor.
Os favoritos: Como é Linda a Puta da Vida | O Amor é Fodido
Torey Hayden
É a grande responsável por eu ter despertado, em definitivo, para a leitura. E a minha vida cruzou-se com a sua obra por acaso. Sem qualquer menção prévia. Mas toucou-me profundamente, uma vez que as suas narrativas partem de casos verídicos. O facto de trabalhar, maioritariamente, com crianças que apresentam necessidades educativas especiais, muitas delas desencadeadas por passados traumáticos, pode ser um verdadeiro murro no estômago. E Torey não faz qualquer tentativa de adornar a realidade. Muito pelo contrário. Por essa razão, rendi-me por completo ao seu discurso, porque as histórias são intensas, mas o profissionalismo da autora transparece amor.
Os favoritos: A Criança que Não Queria Falar |
Os Filhos do Afeto
Afonso Cruz
A prosa poética. A simplicidade que inebria. A infinidade de entrelinhas comoventes. Assim é, para mim, a escrita de Afonso Cruz, porque o modo como cuida das palavras é pura magia e excelência. E são estas que nos embalam a alma. Que nos permitem viajar por histórias fantásticas e singulares, com pormenores que se colam à nossa pele. Além disso, tem o dom de criar laços especiais, com personagens sólidas e inspiradoras. Tenho consciência do quanto sou suspeita, mas considero-o um dos melhores autores nacionais, pois é genial nos contextos que inventa. E agita-nos por dentro. O seu dialeto ímpar entrou no meu quotidiano com naturalidade. E criou raizes fortes.
Os favoritos: O Pintor Debaixo do Lava-Loiças |
Os Livros que Devoraram o Meu Pai
Stieg Larsson
O jornalista e escritor sueco conquistou o meu coração à primeira frase. Porque sabe mesmo contar uma história, tendo em conta o quanto a sua escrita é altamente impressionante e viciante. E, embora não tenha o maior termo de comparação [porque ainda não li tantas trilogias quanto isso], sinto que poucos têm a capacidade de manter a qualidade e o suspense de um livro para o outro. Mas Larsson fê-lo com mestria e deixou um legado inigualável e inesquecível. Portanto, nunca poderia permitir que ficasse de fora da minha estante. E a Millennium merece todo o reconhecimento possível, uma vez que estabelece uma ponte com a luta social do autor. Infelizmente, partiu demasiado cedo, vítima de um ataque cardíaco. Mas permanece o peso da sua obra.
O favorito: Os Homens que Odeiam as Mulheres
O Principezinho - O Grande Livro Pop-Up //
Antoine de Saint-Exupéry
A história que mais me entusiasma. A que faço por reler todos os anos. A que me proporciona novas descobertas e aprendizagens, sempre que a revisito. Porque o poder da sua mensagem é revigorante, transmite uma paz imensa e faz-nos acreditar na beleza - e na pureza - das relações. Em simultâneo, teve um impacto bastante significativo na minha ligação às palavras, que transportam tantos sonhos. Esta edição Pop-Up transborda magia. E apela, ainda mais, à nossa imaginação. Já para não referir a sensação de, também nós, sermos uma parte do enredo e de todas as aventuras com que fomos crescendo. É um dos exemplares mais recentes da minha coleção, contudo, tem um valor inestimável, até porque foi uma oferta de alguém muito especial - a minha afilhada.
Orgulho & Preconceito // Jane Austen
O encanto das grandes narrativas prende-se com a capacidade de se manterem alicerçadas à nossa memória. E este clássico da literatura terá sempre um lugar de destaque no meu coração. Não só porque moldou a forma como observo o mundo, mas também pela força com que cobriu o meu carárer. É que acompanhar uma mulher tão decidida como Elizabeth Bennett só podia inquietar-nos a essência e despertar este nível de inspiração. Além do mais, esta obra é uma janela aberta para uma época diferente da minha, concedendo-me a possibilidade de a conhecer, mas sem ficar restrita à mesma, pois há comportamentos transversais. Nesta história tão plural, para além de todas as questões politicas, territoriais e socioeconómicas - e da crítica inata -, desconstroem-se as primeiras impressões [nem sempre abonatórias]. E vence o amor.
O Pintassilgo // Donna Tartt
Este livro piscou-me o olho várias vezes, mas hesitei adquiri-lo porque, ao ler a sinopse, algo me fazia sentir que não estava preparada para mergulhar no seu enredo. No entanto, por coincidência ou por sinal do destino, cruzei-me com um passatempo que o tinha como prémio e decidi não perder a oportunidade. E fi-lo no momento certo, pois tornou-se uma das histórias da minha vida. A dureza dos factos é equilibrada por um amor comovente. Mas também há momentos em que prevalece o sentimento de culpa, a angustia, as saudades. No fundo, existe um traço muito credível e humano, por isso é tão simples identificarmo-nos e apaixonarmo-nos pelo percurso e superação de Theo, tantas vezes encarado como um anti-herói. Com uma profundidade singular, faz-nos refletir sobre a verdadeira essência das relações intra e interpessoais. E prova-nos que acabamos sempre por encontrar a luz que nos permite [re]conquistar um novo rumo. E recomeçar.
1. Para acompanhar a leitura...
... Um chá de jasmim.
2. Sublinhar livros?
Nem pensar! Mas lido bem com quem o faça, porque, honestamente, cada um deve viver os livros como lhe fizer mais sentido.
3. Uma personagem para tomar café?
Kya - a miúda do Pantanal [Lá, Onde o Vento Chora]
4. Team marcador de livro
Ou qualquer coisa serve para marcar a página?
Sou team marcador de livro [principalmente, o meu do Principezinho].
5. Um livro para reler?
Cinco Quartos de Laranja, Joanne Harris.
6. Um livro que te acompanha da infância?
Tenho vários, mas destaco O Principezinho e Contos de Princesas.
7. Na mesa de cabeceira tenho...
... 1Q84 Volume 2, Haruki Murakami.
Os livros unem pessoas. E estas são as caras por trás das estantes:
Sintam-se à vontade para participar na Estante Cápsula
[se o fizerem, deixem-me o link para ir ler]








