O caderno “Prosa & Verso” do Globo, dias atrás, publicou um soneto de Euclides da Cunha que eu lembrei de ter lido em algum compêndio escolar, mas tinha esquecido por completo. 

O original está manuscrito por cima de uma foto de Euclides, entre amigos, numa comissão de exploração do Alto Purus, na Amazônia, em 1905. E merece um pequeno exame. Diz o soneto: 

Se acaso uma alma se fotografasse 

de sorte que, nos mesmos negativos, 

a mesma luz pusesse em traços vivos 

o nosso coração e a nossa face; 

e os nossos ideais, e os mais cativos 

de nossos sonhos... Se a emoção que nasce 

em nós, também nas chapas se gravasse 

mesmo em ligeiros traços fugitivos; 

amigo! Tu terias com certeza 

a mais completa e insólita surpresa 

notando – deste grupo bem no meio - 

que o mais belo, o mais forte, o mais ardente 

destes sujeitos é precisamente 

o mais triste, o mais pálido, o mais feio. 

É um clichê, é a fantasia romântica sobre a possibilidade de enxergar a verdadeira alma de alguém; mas a idéia de que a luz gravasse sobre os “negativos” essa alma ressalta a curiosa contemporaneidade entre a fotografia e o espiritismo. 

O primeiro daguerreótipo é de 1839. A primeira manifestação mediúnica das irmãs Fox foi em 1848. Na década de 1890, a Society for Psychical Research produziu na Inglaterra uma imenso arquivo de fotos de materializações de ectoplasma, visualização de espíritos, etc. Sessões de médiuns famosas como Eusapia Palladino (1854-1918) e Eva Carrière (1886-?) foram extensamente fotografadas. 

A idéia de fotografar a alma (do médium, ou alheia) não era um devaneio de Euclides, era uma pesquisa que dezenas de cientistas sérios levavam a cabo nessa época. 

O sentido moral do soneto, o que me parece ser o objetivo do poeta, é a idéia convencional de que essência e aparência são contraditórios, “quem vê cara não vê coração”. O poema parece uma versão menos “dark” de O Retrato de Dorian Gray de Wilde, se tomarmos “retrato” como sinônimo de “foto” e não de “pintura a óleo”. 

A releitura, agora, me trouxe outro ponto de vista. Este soneto sempre me pareceu dizer, em seu desfecho: “Esse indivíduo que você está vendo nesse grupo, esse indivíduo tão belo, tão forte, tão ardente, é na verdade o mais feio de todos, e nós perceberíamos sua feiura, se pudéssemos enxergar sua alma”. 

Mas como o poeta coloca entre esses dois tipos um sinal de igualdade, é possível ler também o inverso: “Sabem quem é o mais belo, forte e ardente desses indivíduos? É precisamente esse que, quando o vemos apenas por fora, é de todos o mais triste, pálido e feio”. 

É o sertanejo. O sertanejo “desgracioso, desengonçado, torto” que de início despertou menosprezo em Euclides, mas aos poucos o conquistou pela sua bravura, estoicismo, grandeza moral. Fotografado de fora, era o “Hércules-Quasímodo”. Quando emergiu de si mesmo, transfigurou-se no “titã acobreado e potente”, graças ao olho-câmara do poeta-jornalista.