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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro que te foi oferecido
Avisos de Conteúdo: Morte, Doença Mental
O gesto de oferecer um livro é, no meu entender, uma demonstração de apreço tão bonita, que me desarma sempre. Por oposição, reconheço que o seu traço intimista possa representar um entrave. Mas há poucas coisas que me aconchegam tanto como a perceção de ter as minhas pessoas a acalentar novas leituras. Assim, para o penúltimo tema do Uma Dúzia de Livros, abracei um presente, escrito por Curzio Malaparte.
«Há o Sol, no alto. Prefiro a névoa»
O Sol é Cego inicia-se com uma certa suavidade nas suas descrições, fazendo-nos questionar se o cenário de guerra seria mesmo uma possibilidade. Mas era. E isso torna-se evidente no conflito que opõe o exército italiano ao exército francês e nas batalhas que travamos no nosso interior, por culpa da desgraça humana, pela indiferença, pelas idiossincrasias, pela tragédia e, sobretudo, pelo sentimento de culpa, como se o destino estivesse sob o nosso comando. Contudo, o amanhã é inelutável. E temos de gerir as suas consequências.
«(...) e as vozes das sentinelas ouviam-se como
vozes chamando da profundidade do sonho»
Há, em simultâneo, uma dose de espiritualidade e surrealidade; de lirismo e fatalidade. Porque esta obra representa o deteriorar mental do Homem. Escrito a partir da experiência do autor enquanto correspondente de guerra, O Sol é Cego mostra-nos os excessos da desonra, a irracionalidade e o quanto somos responsáveis pelo outro. Com uma escrita acessível, envolve-nos neste enlouquecer lento, mas com um trilho de esperança.
«Aquilo que corrompe os homens, aquilo que os torna
malvados, vis, egoístas, é a consciência da morte»
