Morro_Favela
André Diniz (fotografias de Maurício Hora)
Morro da Favela
Polvo

A criação de discursos sobre as favelas, sejam de índole ficcional ou documental, cede muitas vezes ao registo da compaixão, ilustrando desgraças como se nada mais houvesse e afirmando um olhar onde a tolerância, esse sentimento tão sobrevalorizado como hediondo, acaba por transformar-se em pena. Para essa tipologia de discursos, André Diniz não oferece contribuições, procurando um registo mais quotidiano do que televisivo e definindo um olhar a partir de um filtro prévio, o olhar de Maurício Hora, fotógrafo nascido e criado no Morro da Providência. É dele a biografia que serve de matéria à narrativa de Morro da Favela, logo transformada em sinfonia do lugar quando Diniz lhe acrescenta os fragmentos de outras vidas, histórias de vizinhos e das suas famílias, os trabalhos precários, as discriminações quotidianas e os encontros com a polícia. Como diz o autor no prefácio, a vida numa favela é coisa que não existe, ou existe da mesma maneira que num bairro de classe média, uma aldeia rural, uma cidade pequena – não é diferente de qualquer outra comunidade e o ser favela não faz dela realidade homogénea ou com comportamento pré-definido.

Os recortes a negro sobre branco, angulosos e com forte contraste, convocam a encenação de um teatro de sombras, mas a ilusão de podermos assistir ao desenrolar de um enredo a partir da posição segura do espectador é desfeita pela perspicácia de um argumento que implica o leitor. É nesta proximidade entre personagens que sabemos reais e uma vida que podia ser a nossa que se constrói uma banda desenhada engenhosa no que à mise-en-page diz respeito e sem subterfúgios misericordiosos no que toca ao argumento, confirmando que ver, com os olhos ou a objectiva de uma câmara, é sempre mais do que olhar através de discursos prévios, preconceituosos e fechados.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Expresso/Actual, Agosto 2013)