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| Fotografia da minha autoria |
«Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal
- ou assim quer acreditar»
As pessoas guardam mundos em caixinhas, dentro de si. E nós, que estamos de fora, nunca sabemos o tamanho das lutas que travam naquele momento. Por isso, é tão importante aprendermos a abraçar e a promover a empatia, por mais que não compreendamos determinados comportamentos, escolhas e partilhas. Porque não temos de os entender. Temos, sim, de respeitar e de permitir que o outro tenha espaço para ser sem filtros.
«Eu existo mesmo, não existo? Muitas vezes, sinto-me como se
não estivesse aqui, como se fosse um fragmento ...» [p:13]
A Educação de Eleanor é um livro desafiante e desarmante, uma vez que nos possibilita conhecer uma protagonista peculiar, excêntrica, com um humor mordaz. Além disso, logo de imediato, pressentimos que a sua vida está envolvida em algum mistério, sobretudo, no que diz respeito ao seu passado. Portanto, nas primeiras páginas de leitura, senti-me a questionar o conceito de normalidade, visto que somos seres distintos e com autonomia suficiente para trilharmos um caminho que em nada se assemelhe a quem nos rodeia. Em simultâneo, ficou mais evidente que não é por não convivermos com certas realidades que elas não existem. E a autora teve a sensibilidade de dar voz a uma personagem diferente do que conhecemos, mas sem estabelecer barreiras entre nós. Muito pelo contrário, construiu uma ponte que nos aproxima da sua bela essência.
«Tenho cicatrizes no coração» [p:81]
Inicialmente, Eleanor parece difícil de decifrar. Porém, mesmo perante algumas atitudes que aparentam ser inusitadas, vamos descobrir que tudo tem um contexto e um propósito. Aliás, vamos perceber que a sua maneira de encarar a vida não era mais do que uma proteção, para a impedir de ficar vulnerável e voltar a sofrer. O problema é que, deste modo, também não permitia que novas experiências e pessoas se cruzassem no seu caminho. Neste aspeto, Oliphant apresenta uma gritante inaptidão social, sem perceber convenções e sem se preocupar com o que pensam sobre si. E é impressionante como há aspetos do trato social que desconhece, fruto da educação negligente que teve. No entanto, toda esta condição leva-nos a ponderar tudo o que assumimos como garantido e que consideramos transversais a todos os ambientes.
«Como era maravilhoso poder ler a pele de alguém,
explorar a história da sua vida através do peito...» [p:132]
Gail Honeyman escreveu uma narrativa com foco na solidão e na saúde mental, que nos permite embarcar numa viagem introspetiva e de descoberta interior. Eleanor, supostamente, está bem resolvida, mas até que ponto podemos sentir falta de algo que nunca tivemos? Após um evento que abala a sua rotina e impulsiona uma mudança gradual no seu quotidiano e na sua interação com os demais, desconstrói o poder das relações interpessoais, alargando horizontes. A sua infância conturbada condicionou, por completo, a sua confiança. Contudo, à medida que vai quebrando o cerco onde se refugiou, libertando-se dos fantasmas do passado, vêmo-la renascer, vivenciando uma série de oportunidades novas, tornando-se fascinante acompanhar a sua evolução.
«Não havia esperança. As coisas não tinham remédio» [p:227]
Um dos pontos fortes desta obra prende-se com o facto de a protagonista não alterar a sua personalidade para servir a história, o enredo é que se ajusta às suas particularidades. Outra das suas características mais entusiasmantes é que é bastante emocional, havendo espaço para tudo. E, sendo uma história que nos faz sentir tanto e tanta coisa, o nosso coração permanece em alvoroço, mas existe uma harmonia perfeita entre a tristeza e o divertimento, reforçando a certeza de que a vida é um plano dicotómico, com dias bons e dias maus, que tanto nos leva às lágrimas, como nos desencadeia sorrisos.
«Quando estamos a ter dificuldades em gerir emoções, é
insuportável ter de ver as emoções de outras pessoas» [p:293]
A Educação de Eleanor tem uma carga psicológica poderosa. E foi escrito com um enorme cuidado. Além disso, mostra-nos a importância dos afetos e a necessidade de pedirmos ajuda, de não julgarmos e de sabermos perdoar. Fazendo-nos acreditar que há sempre uma saída, tem um caráter muito humano, que nos faz equacionar quantas Eleanor já se terão cruzado connosco. Mas Oliphant está bem. E ficará ainda melhor.
«Deixei-me abraçar, encostei-me mais ao abraço» [p:311]
// Disponibilidade //
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