Tendo lido um batalhão de vitorianos em tempos idos, decidi virar-me para um clássico português e um autor que, para mim, seria uma estreia. Assim, li Uma Família Inglesa, de Júlio Dinis, autor que tinha nas mais altas recomendações após o meu respectivo ter lido e adorado o seu mais popular, as Pupilas. Tendo-me envolvido em várias outras leituras, infelizmente em simultâneo, acabei por deixar a leitura do meu próprio desafio (!) para o final do mês, tendo concluído ainda a tempo.

Já tinha lido no blog da Cristina, e confirmo: os dois primeiros capítulos são tenebrosos e convencem qualquer um a abandonar a leitura. Ao contrário do que comentara no post dela, li o livro começando por esses dois prólogos terríveis; o sobreaviso foi, porém, útil, caso contrário teria realmente passado o livro e optado por uma outra obra.

 


Antes de mais: foi uma experiência bastante positiva, mas não fiquei rendida. A família inglesa consiste em Mr. Richard Whitestone e os seus dois filhos, Jenny, de 22 anos, e Carlos, de 20 (ambos os aniversários ocorrem na trama, vá), que vivem, ironicamente talvez, na Rua dos Ingleses (hoje, do Infante D. Henrique). Mr. Richard, o patriarca, é viúvo e chefe de uma casa comercial, de exportação. Apresenta a rigidez estereotípica britânica. Jenny é tão boa pessoa e tão estimada que é sensaborona, irreal, unidimensional e não consegui gostar dela. A sua presença irritava-me por vezes, o que me impediu de desfrutar mais da obra. No livro, no entanto, toda a gente a adora e venera. Carlos é dado como muito bom, mas facilmente levado pelas loucuras da juventude e propenso a más decisões.

Mais uma vez se verificou a eterna luta entre a teoria e a prática; uma, com seus instintos de jovem, com seus hábitos de atividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma índole, essencialmente prosaica e conservadora, fiel ao passado, que foi seu mestre, desconfiada do futuro que não conhece, severa para com as ideias novas, cujos humores travessos a impacientam.

A muita bondade de muitos dos personagens não me convenceu totalmente, tornando-os menos interessantes. Curiosidade: Júlio Dinis descreve uma personagem feminina como "típica mulher portuguesa" mas, na minha opinião, falha em fazer-se compreender. Continuo sem perceber o que ele queria dizer com isso...

 


Uma das más decisões de Carlos, com a qual abre o livro (após o dito prólogo) é passar a noite do seu aniversário - que calha ser véspera de Carnaval e o qual, sabe-se lá como, ele esquecera - com os seus "amigos", um bando de arruaceiros pelos quais é difícil sentir qualquer simpatia (e dos quais nem Carlos parece gostar muito), acabando por ir a um baile de máscaras. Neste baile, conhece uma misteriosa rapariga que não lhe revela a sua identidade, mas que aparenta saber muito sobre ele. Drama ensues.

Entre o romantismo e o realismo, Júlio Dinis apresenta um romance assolapado, um amor à primeira vista (e à primeira conversa, claro) permeado por descrições de espaços, locais e pessoas. O drama, o horror, a tragédia! Mas as ruas e o Águia de Ouro, a Rua de Santa Catarina e a Foz, as senhoras de má fama e do teatro e a burguesia, fazem valer a pena a leitura, desviar um pouco do estereótipo romântico da donzela doente de amores, do amor impossível.

4/5