Muita gente já me perguntou por que motivo quase não existe torcida organizada do Flamengo, Corinthians, etc. quando estes times vão jogar em Pernambuco. Aqui na Paraíba, ao contrário, basta o avião do Flamengo apontar no horizonte e as cidades se cobrem de preto-e-vermelho. O Corinthians tem mais torcedores na Paraíba do que o Campinense, e o Botafogo do Rio mais do que o Botafogo de João Pessoa. Por que será? Alguns dos meus leitores sugerem que é porque o paraibano é sem personalidade, gosta mais dos times de fora do que dos seus, e acha que está se valorizando quando o Vasco vem jogar contra o Treze e ele larga em casa a camisa do Treze e compra uma do Vasco.

Meus amigos pernambucanos dizem: “Torcer por time de fora? Pra quê? Time de fora que se dane. Não gosto de nenhum deles. Sou Sport! A única serventia desses times do Rio e de São Paulo é dar surra no Santa Cruz e no Náutico”. Eis o segredo do torcedor pernambucano. Ele não torce pelos times de fora, mas não é por amor à terra, é porque ele detesta os adversários domésticos ainda mais do que detesta os times de fora. Até Ariano Suassuna, recifense adotivo, afirma: “Eu não dou a menor importância a Campeonato Brasileiro. É uma bobagem. O que é importante é ser campeão pernambucano, é ganhar do Náutico e do Santa Cruz. O resto é irrelevante”.

É uma faceta do imenso (e, em alguns aspectos, saudável) bairrismo dos nossos vizinhos. Para eles, Pernambuco vem antes do Brasil, mas o torcedor de lá não torce por qualquer time pernambucano contra os demais; e pelo time de fora ele torce apenas o necessário para derrotar o inimigo local. Para ele, seria um contrassenso largar a camisa do seu Leão, seu Timbu, sua Coral, e vestir, mesmo que por uma tarde apenas, o uniforme de um clube “estrangeiro”.

Daí esse menosprezo que os torcedores pernambucanos têm para com as torcidas da Paraíba, da Bahia, de outros Estados, que se enfeitam todas com as bandeiras e as cores de times cariocas e paulistas que vêm disputar um jogo. Não adianta dizermos: “Sou Treze, mas o Flamengo é meu segundo time”. Pernambucano não tem segundo time. Um torcedor do Náutico fica feliz da vida quando o Sport perde para o Palmeiras: sai às ruas, faz buzinaço, etc. Mas – ir para o estádio com a camisa do Palmeiras?! De jeito nenhum. Prefeririam desfilar de baby-doll na Ponte Buarque de Macedo.

Vai ver que têm razão. Porque quando admitimos a possibilidade de torcer por um time carioca, digamos, contra nossos adversários locais, estamos nos deixando contaminar de um certo amor por esse time estrangeiro. Daí a pouco estaremos acompanhando o campeonato do Rio, torcendo para que ele faça uma boa campanha. Comemoraremos quando for campeão carioca. E o horror dos horrores surgirá no dia em que esse time carioca virá à nossa cidade enfrentar nosso time local... e nos descobriremos com a vontade secreta de que o carioca vença. Será o último prego no caixão do Nordeste.