Paulo Bandeira Faria A Despedida de José Alemparte Teorema
A Galiza tem sido fértil na produção de sagas romanescas, e nem sempre assinadas por autores galegos. O segundo romance de Paulo Bandeira Faria é disso bom exemplo, cruzando três gerações e a história recente dos nossos vizinhos, da Guerra Civil aos dias de hoje, passando pela ditadura e pelas suas sequelas.
Entregue a um trio de vozes cujas características confirmam a mão certeira do autor para a construção de personagens, a narrativa vai ganhando corpo à medida que se percebe que a despedida do título é, mais do que o acenar afectuoso aos que hão-de ficar por cá, um modo de desembaraçar os fios de uma vida que se aproxima do fim e cujos segredos, mal-entendidos e arrependimentos atravessam o caminho de José Alemparte tanto quanto os caminhos dos outros narradores (Emma, nora de um velho amigo desavindo do protagonista, e Alex, filho de Emma). O paralelo entre este desembaraçar de fios, tornado urgente pela ameaça da doença de Alzheimer, e o apuramento dos factos históricos que ainda não sossegaram a memória do passado recente na Galiza e em Espanha é um dos pilares estruturantes deste romance, mas é o registo da mágoas e das alegrias em tom pessoal que faz de A Despedida de José Alemparte uma história sem tempo nem espaço, confirmando que não mudamos assim tanto à medida que as décadas passam e afirmando uma urgência de clarificação que é tão importante para o avanço pacífico da História como para o sossego com que cada um de nós prefere envelhecer e, já que tem de ser, partir.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Jul. 2012)
