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Fev22
Maria do Rosário Pedreira
Dez anos após a sua morte:
Manolo o Cigano abriu os olhos, observou a luz ténue que se infiltrava pelas frestas da barraca e levantou‑se procurando não fazer barulho. Não precisava de se vestir porque dormia vestido: o casaco cor de laranja que lhe oferecera no ano anterior Agostinho da Silva, de alcunha Franz o Alemão, domador de leões desdentados do Circo Maravilhas, servia‑lhe ao mesmo tempo de casaco e de pijama. Na luz fraca do alvorecer procurou aos apalpões as sandálias transformadas em chinelos que usava como calcado. Encontrou‑as e calçou‑as. Conhecia a barraca de cor, e podia mover‑se na semiobscuridade respeitando a geografia exacta dos míseros trastes que a mobilavam. Avançou calmamente em direcção a porta e foi entao que o seu pé direito bateu no candeeiro de petróleo que se encontrava no chão. Merda de mulher, disse entredentes Manolo o Cigano. Fora a sua mulher que na noite anterior tinha querido deixar o candeeiro de petróleo junto a enxerga com o pretexto de que o escuro lhe provocava pesadelos e que sonhava com os seus mortos. Com o pavio no mínimo, dizia ela, os fantasmas dos mortos não se atreviam a visitá-la e deixavam‑na dormir em paz.
Antonio Tabucchi, A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, tradução de Theresa de Lencastre