Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Belíssima edição da Cosac Naify (pra variar). Falarei um pouco sobre cada conto, à medida que for lendo:
04/06/2012:
Guardador
A rua ruim de novo.
Assim, com essa cacofonia, começa o primeiro conto, dedicado aos flanelinhas, guardadores de carro. Não gosto deles, não costumo dar dinheiro e acho uma violência a pressão para pagarmos para estacionar num espaço público. O conto não defende nada, apenas mostra o ponto de vista de um guardador, mais um dos miseráveis retratados por João Antônio em suas histórias. Jacarandá é o nome dele, um homem já com a “cabeça branquejando”.
A coisa não vai bem:
“Só no domingo, pela missa da manhã, oito fregueses dão a partida sem lhe pagar. Final da missa, aflito ali, não sabe se corre para a direita ou para a esquerda, três motoristas lhe escapam a um só tempo.”
Ele pensa em pedir esmolas, e reflete sobre o tipo de pessoas que dá:
“Três tipos de pessoas dão. Só uma minoria – ninguém espere outro motivo – dá esmola por entender o misere. Há a maior parte, no meio, querendo se ver livre do pedinte. O terceiro grupo, otários de classe média, escorrega trocados a esmoleiros já que, vestidos direitinhamente, encabulariam ao tomar o flagra em público – são uns duros, uns tesos. Para eles, não ter cai mal”.
Jacarandá bebe demais e ganha de menos. Sonha muito. Quer deixar a vida de guardador, mas não tem forças nem recursos para tanto. Um tema recorrente para João Antônio, mas nem por isso o conto perde seu vigor. A linguagem é dura, seca, repleta de velhas gírias de trinta anos atrás, mas que soam vivas.
João Antônio deve ser lido com calma e com atenção. Sua prosa pode estar passando ao nosso lado e nós corremos o risco de não perceber.
Maria de Jesus de Souza (Perfume de gardênia)
Continuando a narrativa dos desvalidos, do misere, João Antônio relata a história de Maria de Jesus de Souza, uma prostituta de terceira categoria que deu o azar de ser apanhada com maconha. Agora, todos só a chamam de Mimi Fumeta, o que não só é uma injustiça (ela só caiu naquela por burrice, não é de se envolver com a erva nem com traficantes), como lhe espanta os clientes, já que vive sendo abordada por gente interessada em comprar ou em vender. Termina uma noite sem dinheiro, e ela mesma diz como precisa de um ganho:
“E, meu Deus, preciso fazer um ganho. Não ‘guento mais miserê. Se isto for boa vida, berimbau é gaita-de-fole e paralelepípedo, pão-de-ló. Aturo zoada de pilantra a noite inteirinha e, na virada, ganho o quê? O que Luzia ganhou atrás da horta.”
Ela sonha em arranjar um sujeito cheio da grana que por ela se apaixone e a resgate dessa vida. Aí ela passaria a andar de carro importado, comer nos melhores restaurantes, vestir os melhores vestidos, usar joias brilhantes, ser paparicada, enfim, tudo que ela jamais conseguirá de verdade.
Tocante a leitura que ela faz do horóscopo de uma revista de fotonovela, comprada com os últimos centavos que trazia na bolsa. Ela primeiro lê a fotonovela, na qual o moço bonito e “fofinho”, filho de milionário industrial acaba se casando com a bela moça pobre, que se mata para sustentar a mãe doente.
“Não dá para acreditar.”
Aí ela lê um horóscopo que começa com “Alegre-se, garota de Virgem!” e continua com todos os clichês próprios desse tipo de publicação e se enche de esperança. “Sua persistência fará com que enfrente a vida com segurança e tudo será mais fácil”.
Mais tocante é a noção que João Antônio nos entrega do que é um ato de amor. Um casal de mendigos está sentado na calçada, cena observada por Maria de Jesus Souza:
“Estão namorando. O mendigo pousa nos joelhos uma lata de goiabada tomada de guimbas de cigarro que, decerto, na andança, catou nas ruas. Ela fica quieta, só olhando o movimento dos dedos do homem. Então, ele escolhe uma das melhores pontas de cigarro, das maiores e menos amassadas, das de que ainda se poderá sugar alguma fumaça e, numa gentileza, quase tímido, amorosamente, oferece a ela”.
Esse é um conto dolorosamente real, vibrante. Pulsa nele a alma do escritor.
