Caroline Barbosa 

Crédito da imagem: Disquiet / let the circle be unbroken, Manuela Navas, 2024

Zadie Smith, em “Fascinated to presume: In defense of fiction”, se pergunta o que queremos da ficção, pois identifica na cultura contemporânea, um domínio do autobiográfico em muitos temas como raça, classe ou gênero. Para Smith, a ficção gira em torno da dúvida e do questionamento, e é nessa direção que a relação entre experiência do autor e a construção do universo narrativo deve ser pensada. Sua crítica é contundente ao observar, por exemplo, que quando um autor negro é impelido a escrever apenas sobre sujeitos negros e quando sua experiência biográfica é imediatamente associada a uma experiência coletiva, comum a outros sujeitos negros, a complexidade que rege essas vidas se perde. 

Para Smith, a ficção é o espaço de especulação e incertezas, que permite ao autor (e ao leitor) colocar-se no lugar do outro, imaginar emoções, ações. A observação mais inquietante que faz é que o escritor que escreve a partir de sua própria experiência pode cair na armadilha de acreditar que é capaz de captar os fatos de maneira exata para ser lid0 como “mais real”.

Em “Not here to be friends”, Roxane Gay, professora americana, comenta o anseio dos leitores  para encontrar nas obras que leem personagens com os quais se identificam.  Na sua opinião, é possível perceber hoje uma exigência de que o universo ficcional seja seguro, que apresente aos leitores “um mundo ideal no qual as pessoas se comportam de maneira ideal”. Será que o que esperamos da ficção hoje é uma experiência de leitura que nos conforte?

Se é assim, não é o que acontece com Garota, mulher, outras  de Bernardine Evaristo. Uma das personagens do romance é Shirley, uma professora de meia-idade que ao longo dos anos perdeu o ânimo com a educação (“a cada turma de formandos, ela resistia ao impulso de oferecer conselhos sobre os horários de visitas à prisão para as famílias deles, em vez de encorajá-los a continuar a educação”) e assume seu preconceito contra a amiga lésbica. Sua caracterização, portanto, não desperta imediata simpatia do leitor, pois não segue as regras da correção política. 

O exemplo de Shirley me interessa porque desejo investigar a relação entre o que entendemos por ficção hoje e o que solicitamos dela quando nos deparamos com obras que fazem o resgate de vozes silenciadas.  Além disso, me interessa também a tensão que o elemento autobiográfico produz com o ficcional. Por enquanto, as leituras de Gay e Smith me indicam que a reivindicação da autenticidade da experiência vivida por parte de alguns autores é, muitas vezes, recompensada com a empatia do leitor que busca acolhimento e reparação.