por Rafael
Seria mais um assalto. Coisa pouca, pra manutenção da noite. Um celular, talvez um relógio, com alguma sorte uns oitenta, cem reais na carteira (poucos carregam dinheiro hoje em dia), mas não.
Pai e filho vinham pela calçada vazia. Fui de encontro a eles e avisei sobre o que se tratava. Quanto mais objetivo, menor a chance de dar merda.
Ele tentou reagir. O desgraçado estava armado e não tive escolha. Seria eu ou ele. Atirei primeiro, na barriga.
Puxou o pequeno para trás de si, soltou a arma e caiu de joelhos, olhando nos meus olhos, sem dizer nada. Um olhar que misturava surpresa e medo.
O segundo atirei no rosto para arrancar aquele olhar e corri. Corri por cerca de vinte metros e voltei. Voltei e atirei na cabeça do pequeno, que chorava, que caiu sobre o peito do seu protetor. Atirei por compaixão. Não queria que aquele pequeno inocente crescesse sem um pai, assim como eu.
Perdi meu pai aos onze. De lá para cá a dor tomou várias formas e cores, sem jamais perder seu tamanho. Com o tempo aprendi que a dor é parte de mim, que não seria alguém além dela.
Uma criança quando perde o pai, perde um pouco do que seria. É como apagasse um pouco do futuro.
Somos, ou seríamos, sempre um tanto a partir de nossos pais. Seja por imitação, seja por negação.
Ainda hoje sinto meu coração de vidro, que trinca um pouco mais a cada vez que lembro daquela tarde escura, mesmo com sol. Meu pai veio, me beijou e disse que já voltava. Nada especial.
Fechou a porta e nunca mais voltou a abri-la.
Éramos eu e ele.
Eu fiquei.
Fiquei sem jamais saber como reinventar minha vida. Sobrevivi das piores maneiras possíveis.
Envelheci uma vida inteira na tarde em que enterrei meu pai. Me sinto um velho sem memórias, sem nada além de dor para contar. Vida de bicho.
O mundo não precisa de outra pessoa assim. Seria uma injustiça deixar que aquele pequeno inocente se tornasse uma coisa dessas.
Hoje, 22 anos depois, ainda trago no rosto a cicatriz do último beijo do meu pai e, no fundo, sinto inveja daqueles dois corpos, a duas quadras daqui, que misturam seus sangues, o mesmo sangue, sobre o peito-paterno-ainda-quente.