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Jul25

Maria do Rosário Pedreira

Penso que li todos os livros de Leïla Slimani publicados em Portugal. Não me lembro se comecei pela Canção Doce (que foi, creio, o romance que a tornou mais conhecida) ou por O Jardim do Ogre (a história de uma ninfomaníaca que nos sacode o coração), mas decididamente aquilo que mais me interessou na obra desta escritora foi a trilogia que se inicia com O País dos Outros, continua com Vejam-nos Dançar e termina com o recentemente publicado Levarei o Fogo Comigo. Trata-se da história da família da autora, cuja avó francesa se casou com um rapaz marroquino que conheceu na França da Segunda Guerra Mundial, rapaz que, regressado ao seu país natal com a jovem mulher, assume um comportamento completamente diferente do que tinha na Europa (muitíssimo mais conservador e machista). No segundo volume, conheceremos os filhos deste casal e, no terceiro, as duas netas (sobretudo uma delas, que vai estudar para França e que, no fundo, é a própria Leïla Slimani, hoje a residir em Portugal). Este último volume é, para mim, o melhor, talvez porque seja mais fácil reproduzir as nossas próprias memórias do que as alheias; mas é especialmente importante num tempo em que as migrações, o racismo, a expulsão de refugiados e de trabalhadores estrangeiros, a xenofobia, etc., são assuntos que estão na ordem do dia. Leïla Slimani fala de tudo isto numa história fascinante que mostra como algumas pessoas nunca se conseguem sentir inteiramente de um lugar. Vale a pena começar pelo princípio, claro, mas existe nas primeiras páginas do último livro uma lista das personagens dos 3 volumes que ajuda a esclarecer a história da família se alguém quiser começar pelo fim.