09

Nov11

Patrícia

Todos os outros vieram

Tentaram fazer-me rir

Brincaram comigo

Algumas vezes para rir e outras a sério

E depois partiram

Abandonando-me nas ruínas das brincadeiras

E eu não sabia quais eram a sério.

Quais eram para rir e

Vi-me sozinha com os ecos de risos

Que não eram os meus.

E depois chegaste

Com os teus modos estranhos

Nem sempre humanos

E fizeste-me chorar

E não pareceste importar-te que chorasse.

Disseste que as brincadeiras tinham acabado

E esperaste

Até que as minhas lágrimas se transformassem

Em alegria.

in One child

Tinha bastante curiosidade em relação a este livro e a esta escritora. As expectativas não eram altas porque acho sempre que este tipo de livro que “puxa pelo sentimento” e que , ainda por cima, é um best seller não é nada de especial.

Agora que tive oportunidade de o ler (Obrigada, Maria) mudei, um bocadinho, de ideia. Gostei bastante do livro. A história é cativante, a escrita e o tom são bastante acessíveis, lê-se num instante e passamos o tempo todo a torcer pela Sheila e pela Torey.

Torey é uma professora pouco convencional responsável por uma turma de ensino especial. 8 crianças com problemas vários, desde autismo a deficiências mentais e sociais mais ou menos profundas formam aquela turma de “malucos” que acaba por receber Sheila, uma miúda de 6 anos extremamente violenta e que aguarda vaga no hospital psiquiátrico local. Torey e Sheila desenvolvem uma amizade que as muda a ambas. Ao longo do livro emerge uma miúda muito especial e inteligente. Vemos como, imprevisivelmente, ela ganha uma hipótese de ter um futuro normal e risonho.

Esta foi uma experiência feliz, no meio de tantas experiências e tentativas inglórias protagonizadas por todos os professores de ensino especial (e alguns que teoricamente não o são). Torey fez um trabalho fantástico e a miúda era fora de série. Correu bem e deu um óptimo livro. Um livro que enche de esperanças pais e professores. Um livro que pode inspirar quem precisa de um novo fôlego no ensino. Numa altura em que tantos professores não têm qualquer vontade (ou talento) de ensinar é um livro que pode motivar.

Quanto a mim, menos bom, é o pouco desenvolvimento da história. Aquele ano não foi, certamente, tão fácil como Torey tenta mostrar neste livro. Não é um livro técnico, não o pretende ser, mas bem que podia ter sido um pouco mais desenvolvido. Mas provavelmente isso quereria dizer menos livros vendidos.

O que não percebi foi o título do livro: Uma criança que não queria falar. Não era Sheila, certamente. Mais um caso típico de traduções que não fazem qualquer sentido (o título original é One Child).

No geral acho que é um livro que vale a pena ler (com a disposição adequada para histórias lamechas) e que nos deixa com um sorriso nos lábios e a acreditar um pouco mais na humanidade.