08
Nov12
Maria do Rosário Pedreira
Sou há pouco tempo editora do escritor Mário Cláudio e, embora nos vejamos raramente (ele vive no Porto e eu trabalho em Lisboa) – e os nossos encontros sejam, em regra, breves –, a verdade é que, quando nos reunimos, aprendo sempre alguma coisa com a sua experiência e a sua inteligência (perdoem-me a rima, mas para estas palavras não há sinónimos). Há uns dias, ele fez-me reparar numa coisa a que ainda não tinha prestado atenção – e estava, de resto, bastante indignado ao partilhá-la; dizia-me que hoje, quando as pessoas falam de Agustina, usam o passado, como se ela tivesse morrido (fez noventa anos em 15 de Outubro e não publica há uns tempos, mas, caramba, está viva); e contou-me que, num colóquio recente, os participantes, mesmo diante da filha, falavam de Agustina como de alguém a quem, efectivamente, já não corresse sangue nas veias, o que – imagino – deve ter sido bastante incómodo. Fiquei, por isso, muito contente quando nesse mesmo dia fui ao Facebook e tinha um convite do editor Vasco Silva, da Babel, para gostar da página de Agustina Bessa-Luís; e, quando fui lá pôr o Gosto, tive o brinde de um belo cabeçalho com a frase Longos dias têm noventa anos numa clara alusão ao aniversário da escritora, evidentemente, mas também a um dos seus livros de que mais gosto (Longos Dias Têm Cem Anos), cujo exemplar já se está a desfazer na minha estante de tão manuseado. Os bons escritores – entre eles, Agustina – estarão vivos até depois de mortos; e, mesmo então, terão – parece-me – todo o direito ao presente do indicativo.