foto/divulgação Quase meio século depois, Heloisa Buarque de Hollanda repete o feito de reunir poemas que questionam o lugar da lírica entre formalismo e documento social. Se é inegável o valor de 26 poetas hoje no cânone poético brasileiro, a nova antologia, mais do que adicionar o plural feminino, traça um panorama do surgimento de novas vozes poéticas, que cansadas do lugar de musa, assumem o verso. Giovana Proença “Curiosamente, hoje, o artigo do dia é poesia”, escreve Heloisa Buarque de Hollanda na apresentação à primeira edição de 26 poetas hoje, a mais influente antologia poética dos Anos de Chumbo, publicada pela primeira vez em 1976. A afirmação, entretanto, faz jus ao Brasil de 2021, como demonstra a profusão da poesia em redes sociais, revistas digitais e editoras independentes, evocando o assalto poético à cena cultural brasileira da década de 70. Quarenta e cinco anos depois da antologia que abalou os pilares da literatura nacional, Heloisa organiza agora, pela Companhia das Letras, As 29 poetas hoje – com ênfase no artigo, em tempos de discussões sobre gênero e língua. É a hora e a vez da poesia feminina, advinda em meio ao furacão do feminismo panfletado virtualmente, em hashtags como o #MeToo e acessórios que estampam as sobrancelhas da artista mexicana Frida Khalo. A edição acerta em cheio em captar essa atmosfera em termos líricos. O lançamento acompanha a reedição de 26 poetas hoje, em formato livro de bolso, disponibilizando de modo compacto o retrato poético de uma geração. O ano é 1976: no período mais rígido da ditadura militar, Heloísa Buarque de Hollanda reúne a coletânea que definiria a Poesia Marginal, movimento cultural sucessor da Tropicália., preenchendo o que Zuenir Ventura chamou de “vazio cultural”. A coletânea foi um pedido da editora estrangeira Labor, que desembarcando em terras verde e amarelas, pretendia firmar-se fornecendo um panorama do esforço poético dos poetas brasileiros. A empreitada agradou Heloisa, empenhada em pesquisar as microtendências e seu cruzamento com a política e a cultura. O livro revelaria o nome de célebres figuras da contracultura nacional: Francisco Alvim, Chacal, Cacaso e Ana Cristina Cesar. Todavia, antes da consagração dentro do cânone poético brasileiro, a antologia precisaria encarar as críticas, inclusive de seus próprios integrantes. O maior conflito vinha do termo “marginal”, que incomodava os poetas. Chacal alfineta em versos de Quampérius (1977) “-é verdade. mas deve haver algum motivo para todos chamarem essa poesia de marginal/ -qual, essa? eu tou achando até bem-comportada. sem palavrão, sem política, sem atentado à moral cristantã”. Ainda que essencialmente diversos, os poetas reunidos no volume de 1976 partilham eixos gerais em sua produção como a ironia, o tom crítico, a aproximação entre cotidiano e arte e a captação do instante poético. O formalismo experimental desafia a instituição literária e as estruturas rígidas do verso, anteriormente abaladas pelo Modernismo. O desmantelamento das tradições líricas ecoa na poesia da coletânea, em fórmulas como o poema-piada oswaldiano e o retrato cotidiano. A redução da poesia ao valor fundamentalmente sociológico foi outro enfrentamento do volume. A crítica, entretanto, é contrariada pelo lirismo nada comedido que agradaria ao fastio de Manuel Bandeira. O trunfo da geração de 70 pode ser definido assim pela dupla transfiguração do cotidiano e da atmosfera cultural e política. Os versos dos poetas selecionados a dedo por Heloisa Buarque de Hollanda foram a resposta de uma geração limitada pela repressão, em sua expressão social. O mineiro Francisco Alvim gozaria do reconhecimento pelo Prêmio Jabuti concedido à coletânea Poesias Reunidas (1988). Mais de uma década antes, escreveria em “aquela tarde” uma das mais explícitas referências ao regime militar da antologia “Disseram-me que ele morrera na véspera./ Fora preso, torturado. Morreu no Hospital do Exército/ O enterro seria naquela tarde.” Cacaso, cuja voz poética contraria os versos de sua autoria, epígrafe de 26 poetas hoje “Exagerado em matéria de ironia e em/ Matéria de matéria moderado”, ironiza as azedas consequências do chamado milagre econômico brasileiro em “jogos florais”: “Ficou moderno o Brasil/ ficou moderno o milagre:/ a água já não vira vinho,/ vira direto vinagre”. A grande surpresa da antologia fica por conta da participação de Roberto Schwarz – um dos mais proeminentes críticos literários brasileiros, especialista na obra de Machado de Assis e na gênese do romance brasileiro – ao considerar-se o espanto da crítica em face da poesia apresentada em 26 poetas hoje. Schwarz impressiona pela lírica sentimental e que foge aos padrões acadêmicos. “vou me apegar muito a você/ vou ser infeliz/ vou lhe chatear”, os condensados versos de “jura” manifestam a poesia emocional do autor, dignas de refletir o drama de Bentinho e Capitu, de Dom Casmurro. Ana Cristina Cesar apresenta uma posição ímpar como elo que ancora o período de 45 anos que separa 26 poetas hoje e As 29 poetas de hoje. “Já ouvi dizer que tudo começou com Ana Cristina Cesar” escreve Heloisa Buarque de Hollanda na antologia de 2021, descrevendo o que denomina “efeito Ana C.”. Ana oferece como respiro a politização do cotidiano. Com a astúcia necessária para ironizar métodos de seu próprio movimento, reproduz cartas e diários. A poeta expressa a experiência feminina em seus versos, de sintaxe única. Em As 29 poetas hoje, a xará Ana Frango Elétrico, aproxima-se de Ana C. na transfiguração poética de imagens banais “acordei atrasada/ vou chegar chapada no dentista/ boto perfume enquanto escovo os dentes/ o casaco no elevador/ blusa amarela/ pego o caderno/ giro a roleta;”. As 29 poetas hoje alterna entre o tom combativo e de celebração da experiência feminina. Limitar a essência dos versos das poetas da antologia como feminista torna-se um grande reducionismo. A repressão própria que permeia a coletânea, afastada do peso dos Anos de Chumbo, é mais ampla do que teorizações, resvalando na vivência. O feminino, no caso, vem da consciência e do reconhecimento da condição de ser mulher dentro da sociedade brasileira. A poeta recifense Luna Vitrolira, um dos destaques da seleção da curadoria de peso de Heloisa, sintetiza bem as discussões acerca da experiência feminina que movimentam as redes sociais. Se Cacaso chamou de “Poemão” o conjunto de 26 poetas hoje, As 29 poetas hoje, mais do que um poema coletivo, é uma verdadeira colcha de retalhos que expressa a força da voz coletiva. A essência combativa se manifesta na língua ferina das 29 poetas que integram a antologia. Em alguns poemas, surge como revolta explícita “Já estou vendo nos varais os testículos dos homens,/ que não sabem se comportar”, escreve a paulistana Elizandra Souza. Elas gritam, em contraste com o sussurro dos poetas marginais em tempos de ditadura. A edição da Companhia das Letras aproveita bem o ímpeto contemporâneo – e pandêmico – de navegação em mares digitais, a inclusão de QR codes nas páginas do livro possibilita a escuta das vozes das autoras, em suas cadências e nuances. O processo contínuo de renovação da forma dentro da literatura marca a antologia, de modo que estruturas experimentais derivam do conteúdo original. Assim defende Mel Duarte em “Deslocamento – poema manifesto”,“Eu tô falando de deslocamento,/ dá voz ao movimento,/ sair do lugar-comum,/ explorar novos conceitos”. As subversões da poética tradicional se expressam pela paródia, sendo “amazonas das sete lanças”, de Cecília Floresta, referência ao drummondiano “Poema de Sete Faces” a mais marcante – e gauche – do volume As contradições do Brasil de hoje são retratadas pelas lentes minuciosas das poetas, como a violência institucionalizada, que marca presença em versos de diversas autorias. Nem tudo está perdido: a pluralidade de perspectivas garante o caleidoscópio temático da antologia, que versa entre o amor, a dor, as origens e a revolta. A ótica descolonizada e indígena de Renata Machado Tupinambá e a poesia queer de Raíssa Éris Grimm Cabral, centrada na lesbianidade, asseguram a positiva multiculturalidade de As 29 poetas hoje. A antologia despe a posição central do corpo na poética feminina contemporânea. Aliás, não qualquer corpo, mas um que versa e rima. Na escrita das poetas, o corpo é um organismo duplo, sujeito a violência e ao prazer, efervescente em suas percepções. Os versos acompanham a abertura ao prazer feminino e a vivência plena da sexualidade e suas narrativas. Os próprios desejos, o corpo do homem – e de outras mulheres – são descritos sem pudores: “de não poder ver tua cara enquanto gozas na minha/ para depois admirar suas quartelas bordo e casco,/ tuas estrias no lombo de potro bem alimentado crescido” “uma mulher que ama uma mulher aprende a lamber as coisas/ por dentro” poetizam Adelaide Ivánova e Maria Isabel Iorio. Também vem do corpo o peso de ser mulher, sintetizado na figura do útero por Jarid Arraes “uma mulher é um útero/ que carrega algo/ há dias em que gente/ há dias em que chumbo”. Quase meio século depois, Heloisa Buarque de Hollanda repete o feito de reunir poemas que questionam o lugar da lírica entre formalismo e documento social. Se é inegável o valor de 26 poetas hoje no cânone poético brasileiro, a nova antologia, mais do que adicionar o plural feminino, traça um panorama do surgimento de novas vozes poéticas, que cansadas do lugar de musa, assumem o verso. Vozes que se impõem para não mais se “khalar” – como diriam em twittês aqueles que veem com desconfiança os avanços rumos à pluralidade. Assistimos os caminhos mais diversos da literatura brasileira, com a conquista de espaço para novas manifestações na poesia, que não pretendem parar por aí “poeta bom/ poeta morto/ e eu me recuso/ a morrer/ tão cedo”, avisa liricamente Luz Ribeiro. As críticas para essa geração são rebatidas por versos cortantes – e teclados. Acima de tudo, as duas antologias retratam respostas de um “hoje” para a repressão que se arrasta. 29 poetas hoje Heloisa Buarque de Hollanda Cia das Letras 2021 264 páginas