Fotografia da minha autoria

- Feliz Dia Mundial da Criança -

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A sala estava, novamente, cheia de folhas espalhadas pelo chão.

Sofia, sempre irrequieta, tinha entrado no escritório dos pais, onde todos nós sabemos que existem as melhores folhas, as melhores canetas e os melhores lápis, para rabiscar meia dúzia de letras sem sentido. Porque havia qualquer coisa naquelas formigas desenhadas a carvão que a deixava feliz. Tão feliz, que aprendeu a falar em verso.

De todas as vezes que lhe perguntavam como se chamava, Sofia respondia

Sou a Sofia

Feita de alegria

Se alguém a interrompia, com palavras ou com risos, abria muito os olhos e respondia

Se me queres conhecer

Tens de ouvir o que tenho para dizer

E foi assim que foi crescendo: de rima na ponta da língua.

Como todos lhe achavam imensa graça, não perdiam uma oportunidade de a incluir nas conversas familiares, ao jantar, acompanhando cada um dos seus pensamentos. Sentindo-se importante, Sofia aproveitava cada segundo, mesmo sem saber, para ir construindo um sonho, porque a sua família era a folha em branco onde ia brincando com as palavras, escutando-lhes o som e os abraços que construíam frases curtas. Tão curtas que lhe cabiam na palma da mão.

Mas Sofia sonhava. E crescia. E das palavras faladas começou a escrever, ocupando cadernos e mais cadernos. Quando regressava da escola, era vê-la no jardim a observar as flores, enquanto não descobria a palavra certa para encaixar naquele espaço vazio, quase como se estivesse a completar um novo puzzle.