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Fev14

Maria do Rosário Pedreira

Abro a excepção para publicar na LeYa um autor estrangeiro que me convenceu ao desvio: o sul-coreano Kim Young-ha (se fosse aqui, chamar-se-ia Young-ha Kim, porque «Kim» é o apelido), considerado pela crítica o nome mais vibrante da sua geração e traduzido em mais de dez países. A sua novela, Tenho o Direito de Me Destruir, com uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira, não é para qualquer dente, por algum atrevimento sexual (com chupas-chupas à mistura e bolinha vermelha ocasional) e bem assim por tratar um tema bastante polémico, o da morte assistida. Mas não se pense que o protagonista e narrador, amante da pintura, ajuda caridosamente a morrer doentes terminais. Nada disso. Ele está, sim, especialmente atento aos deprimidos e solitários (as mulheres que viajam sozinhas ou encontra em museus são alvos preferenciais) e, por ser culto e inteligente, põe à sua disposição um maravilhoso serviço de assistência ao suicídio, munindo-se de um catálogo bastante completo. Vive deste estranho ofício e bastam-lhe dois ou três clientes generosos por ano para ter uma vida pacata e sem dificuldades. Quando termina um trabalho, escreve sobre a pessoa que ajudou a livrar dos seus problemas – é através do seu relato fiel, cínico e criativo que conheceremos Se-yeon, a rapariga por quem dois gémeos estavam doidamente apaixonados e desapareceu do carro de um deles no meio de engarrafamento na neve; ou Mimi, uma artista de vanguarda que não deixava que filmassem as suas performances por ter medo de se ver a si própria. Num cenário que usa Seul para espelhar a velocidade do mundo moderno e os dramas actuais da humanidade, Kim herda uma certa obscuridade de Kafka e uma certa ousadia de Brett Easton Ellis para compor um texto admiravelmente seco, sem palha, e ao mesmo tempo perturbador e exótico. A capa portuguesa, belíssima, é de Rui Garrido.