José Reinaldo do Nascimento Filho
Terminei Meridiano de Sangue.
A experiência literária pela qual passei recentemente foi singular e curiosa. Explico. Para quem acompanha regularmente o blog sabe que escrevi alguns comentários sobre Doutor Fausto, de Thomas Mann, e que nesse texto coloquei a “porcentagem” de compreensão e aproveitamento – referentes aos temas propostos pelo autor -, entendidos por mim (confira o texto aqui). Não obstante a complexidade inerente às obras do Mann (refiro-me ao conteúdo de uma forma geral), o que mais me chamou a atenção foi a sua forma de escrever impregnada de apostos (ou seria melhor, “impregnadas da dialética dos apostos”?). Ler Thomas é, também, um exercício de paciência e harmonia. Pude perceber isso a partir da cadência da minha respiração – situação que não ocorreu durante a leitura do Meridiano de Sangue, no qual precisei inspirar uma quantidade razoável de ar para poder, “sanguiniamente”, chegar tranquilo até o último ponto (do contrário existe a possibilidade “única” de sermos acometidos de uma síncope levando-nos à morte prematura).
Citando e semelhante e influenciado tanto pelos “autores” bíblicos quanto de William Faulkner, McCarthy escreve praticamente sem apostos ou vírgulas ou pontos (tentei imitá-lo. Triste). Quando iniciamos a leitura de um dos parágrafos é quase “impossível” parar enquanto não chegarmos ao ponto final. Outra característica curiosa refere-se à crueza das suas descrições violentíssimas, pois Cormarc parece estar ditando friamente e “poeticamente”, uma lista de compras – mas no lugar de mercadoria temos e “vemos”, cabeças arrancadas, membros amputados, tripas ganhando os ares e miolos expostos.
A singularidade nas leituras de Mann para McCarthy ganha ares mais curiosos porque, não obstante as diferenças literárias visíveis, os dois livros assemelham-se quanto às possibilidades de reflexões para além da historieta narrada. Contudo, enquanto que no Fausto isso é explícito, no Meridiano nós não “precisamos” ficar presos às reflexões. No entanto (e como gosto dessa palavra) como não intrigar-se com os personagens de Meridiano de Sangue? Como não questionar-se e interrogar os amigos e irmãos que leram o livro sobre quem é ou o que é o juiz Holden, por exemplo? Então vejamos: Albino, mais de dois metros de altura, sem apêndices filiformes, filósofo, historiador, geógrafo, exímio atirador, rastreador etc (teórico da guerra e de Deus?). E quanto ao Kid que nasce em meio à violência, transita, amadurece e, por fim… (leiam o livro)
O leitor pode tranquilamente ler Meridiano sem, necessariamente, ater-se às reflexões dos personagens McCartianos (uso esse termo porque eles realmente são singulares. Dê uma lida no ótimo “Onde os Fracos não têm vez” e tente compreender o psicopata Anton Chirgurh; ou passe pelos caminhos apocalípticos de “A Estrada” e interprete o Pai que ensina o próprio Filho a meter uma bala na cabeça para não ser devorado por canibais), no entanto sugiro um pouquinho mais de atenção para que essa lacuna – escolher ou não, ater-se à historieta mais reflexões para além do texto – não passe despercebida.
Do mais é isso. Boa leitura e bons livros e boa sorte.
