Do hype ao cult, títulos lançados que chamaram a atenção neste ano

Vidas tardias, de Brandon Taylor (Fósforo)

Taylor apresenta as histórias de um grupo de jovens, majoritariamente millennials, que vivem no campus universitário em Iowa City. Seamus é um poeta com opiniões afiadas; Ivan, ex-dançarino que recorre à pornografia amadora após um revés; Noah, bailarino envolvido em relacionamentos difíceis; e Fatima, que equilibra trabalho e estudos em meio a julgamentos alheios. Eles interagem com professores, colegas, namorados e vizinhos, enfrentando dilemas de identidade, carreira, gênero, classe, racismo e precarização. 

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Autobiografia do algodão, de Cristina Rivera Garza (Autêntica Contemporânea) 

Garza investiga o passado de sua família, formada por operários e camponeses que trabalhavam no cultivo de algodão na fronteira entre Tamaulipas (México) e Texas (EUA). Essa região, antes um polo têxtil, passou por declínio com o colapso do sistema agrícola e é hoje afetada pela guerra contra o narcotráfico. São reflexões sobre histórias familiares e as relações com o território, conectando memória coletiva e individual. Autobiografia do algodão foi selecionado pelo The New York Times como um dos melhores livros em espanhol dos últimos anos. É o segundo título da autora mexicana publicado no Brasil. O primeiro, vencedor do Prêmio Pulitzer 2024 na categoria memórias, foi ‘O invencível verão de Liliana’. 

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A crônica não mata, de Luís Henrique Pellanda(Arquipélago) 

Conhecido por suas crônicas urbanas, Pellanda escreve sobre a pandemia, registrando a cidade vazia de seu apartamento através de leituras, sonhos e reflexões. Com o avanço da vacinação, ele retoma suas andanças, mas encontra uma realidade transformada, diferente da que costumava retratar. Seus textos, fragmentados pela experiência pandêmica, convocam os leitores a retomarem a vida real, o afeto e a civilidade. Ao enxergar o que é essencial, como definiu Ferreira Gullar “o banal maravilhoso”, Pellanda espia os gatos, pensa sobre as máscaras de proteção facial, as encrencas da vida privada, entre outras delícias cotidianas sob a leveza característica da crônica. Uma homenagem ao ofício, que tem se perdido neste opinódromo digital que são as redes.

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Kitchen, de Banana Yoshimoto (Estação Liberdade) 

Kitchen consagrou Banana Yoshimoto como uma das vozes mais originais da literatura japonesa. A primeira história acompanha Mikage, que, após perder a avó, refugia-se na cozinha e vê na gastronomia uma possibilidade de superação e reinvenção pessoal. O livro ainda explora questões como o luto, afeto e ressignificação da vida por meio da comida. Yoshimoto aborda a perda com toques humanos e elementos sobrenaturais que transformam o livro, lançado no final da década de 1980, em um sucesso de público e crítica. 

“Mentes geniais”, de Mario de la Piedra Walter (Todavia)

O neurologista mexicano embarca em uma fascinante investigação sobre o cérebro dos grandes artistas, revelando que condições mentais como epilepsia, esquizofrenia, transtorno bipolar e sinestesia não foram obstáculos, mas sim combustível poderoso para a criação de obras inesquecíveis. O livro demonstra como as complexidades, idiossincrasias e a intensa vida emocional de gênios como Vincent van Gogh, Frida Kahlo e Andy Warhol foram o motor por trás de suas experimentações ousadas e talento extraordinário.

A sabedoria das corujas, de Jennifer Ackerman (Fósforo)

Autora do best-seller A inteligência das aves, ela explora o fascinante mundo das corujas, combinando rigor científico e narrativa fluente. Com presença marcante na cultura — desde pinturas rupestres até Harry Potter —, essas aves despertam encanto e mistério.  Ela mostra o impacto das corujas em uma imensa cadeia ambiental e detalha os comportamentos sociais dessas aves. Apesar de sua popularidade, algumas culturas ainda as vêem como símbolos sombrio.

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Coisa de rico, de Michel Alcoforado (Todavia)

O antropólogo “de luxo” nos leva até os lares dos endinheirados brasileiros e mostra seus pecados, bizarrices e prazeres. Partindo de sua pesquisa de doutorado, Alcoforado faz uma radiografia da elite a partir de diversas categorias, como os emergentes e os old money. Prosa fluida, recheada de cenas ácidas e rocambolescas mostram como nossa burguesia não possui um discreto charme. Uma frase de Washington Olivetto cai bem: do útil ao fútil, mas nunca inútil.

O que sei de você, de Éric Chacour (DBA Literatura)

Por ter sido lançado no final de 2024, este romance do canadense Chacour não foi elencado na lista dos melhores livros daquele ano. Escorregando para o início de 2025, vale lembrá-lo cá. O título foi vencedor de alguns dos principais prêmios de língua francesa nos últimos anos. O autor dá voz a um médico egípcio que se envolve com seu assistente. A trama é cinematográfica, se passa em sua maior parte em meados do século passado na cidade do Cairo. Um estudo delicado sobre as aparências e convenções sociais.

A pequena violinista, de Jon Fosse (Companhia das Letrinhas)

Do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, uma narrativa sensível e profunda sobre ausências. Temos cá uma garotinha com uma missão, mas obstáculos surgem em seu caminho para travá-la. Para enfrentá-los, dotada de alguns poderes sobrenaturais, a menina toca o violino e segue corajosa por pântanos, montanhas e estradas. Fosse percorre os espaços vazios que são transformados pelo som. Uma ode ao poder da música.

Bartleby e eu, de Gay Talese (Companhia das Letras) 

Inspirado no clássico Bartleby, o Escriturário, de Herman Melville, Gay Talese revisita sua carreira como repórter de rua que transformou vidas anônimas em personagens irreverentes (presentes em vários clássicos seus). Aqui, ele mescla memórias pessoais com uma narrativa inédita: a história real de um médico imigrante que, em um ato de desespero, detonou o prédio que dividia com a ex-mulher em Manhattan, isso para não dividir o imóvel depois de um conturbado divórcio. Enfim, ele  transforma um caso sensacionalista em tragédia íntima, explorando o fracasso e a teimosia como metáforas do sonho americano.