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Nov 08
O DIREITO AO ESQUERDO
até prova contrária
não amassem o corpo de pegadas
não agucem a espera da morte
não contaminem a propensão à luz
não passem rolo compressor
nas palavras da alma
não decretem que não existe
até prova contrária
o direito ao esquerdo
in Pedaços/Pezzi (etruria - 1992)
PÁSSAROS CONVULSOS
ave em carne viva
ave em tumulto
ave no osso
ave no uso
asa gravada
no sangue
ave na pressa
ave em voo convulso
pronta
p'ra qualquer
fresta
ave torta
e ávida
em revoada
provisória
in A Chuva nos Ruídos
Escrituras Editora - São Paulo - 2004
Vera Lúcia de Oliveira, poeta do Brasil, de Cândido Mota, estado de São Paulo, é quem mais nos fascina nos últimos tempos. Portadora de uma voz inigualável, com um lado frio pouco visto numa mulher, vive em Itália onde dá aulas de literatura portuguesa. Para a representar na Casa dos Poetas escolhemos dois poemas de épocas diferentes.
recital:
Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele.
Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo.
Marguerite Duras, in 'Mundo Exterior '
_mimi a 12 de Novembro de 2008 às 23:56