01
Fev21
Maria do Rosário Pedreira
Ando (estranhamente, porque não é meu hábito) a ler mais de um livro ao mesmo tempo. Sim, é natural ler durante as horas de trabalho manuscritos ou livros estrangeiros e, à noite, qualquer outra coisa por prazer. Mas não é disso que falo, é mesmo de ler por prazer mais de um livro. Comecei Aquiles, o pequeno romance póstumo de Carlos Fuentes; mas depois pus-me à procura na estante de um livro da velha colecção Dois Mundos, da Livros do Brasil, e não resisti a pegar em Ratos e Homens, de John Steinbeck (que, na minha cabeça se confundia com Luz de Agosto, de Faulkner) e lê-lo (quiçá em homenagem ao ASeve, que adora o autor). São dois livros muito diferente. O do latino-americano, traduzido por Helena Pitta, conta a história de um colombiano que é morto num avião à frente do narrador, que lhe desenha então uma história de vida desde criança. O de Steinbeck é (resumindo muito) a história de dois homens, George e Lennie, este último uma autêntica criança grande, numa herdade da Califórnia durante a Grande Depressão; é história de gente pobre que sonha conseguir um dia um quadrado de terra e viver pacatamente do que produz, mas que assiste permanentemente ao fosso entre pobres e ricos e ao fosso ainda maior entre brancos e negros. Ambos valem a pena: Fuentes merece o nosso reconhecimento pelas fantásticas imagens e por ser um escritor que soube desviar-se do realismo mágico e mostrar-se muito diferente dos seus contemporâneos; o clássico norte-americano já leva o selo de um Prémio Nobel como garante de qualidade. Leiam-nos. Os autores, mesmo mortos, agradecem.