Fotografia da minha autoria

«A realidade escapa-nos como um peixe»

Gatilhos: Violência, Saúde Mental, Doença Degenerativa, 

Luto, Referência a Tentativa de Violação

A voz de Carla Madeira desarmou-me em Tudo é Rio e, sem que o pronunciasse, senti que talvez fosse difícil conseguir o mesmo efeito com outro livro seu. Não gosto de comparar obras, principalmente do mesmo autor, porque acho sempre uma comparação desleal - cada história tem a sua identidade -, mas cá estou eu a morder a língua (irónico, não é?), porque esta narrativa levou-me numa viagem ainda mais impactante.

 personagens que saem do papel

A Natureza da Mordida conta-nos a história de Biá, uma psicanalista reformada e apaixonada por livros, Olivia, uma jovem jornalista, e a forma como os seus caminhos se cruzaram, porque houve uma pergunta a marcar a interação: «o que perdeu que a entristeça tanto?». Perante essa provocação, há um desbloqueio entre duas estranhas que culmina numa relação de intimidade muito pura.

O tom é partilhado, oscilando entre a narração «objetiva e linear de Olivia» e as anotações «esparsas e sarcásticas de Biá», o que nos ajuda a enlaçar as pontas soltas e, sobretudo, a compreender as diferentes faces do mesmo acontecimento. Assim, os primeiros encontros das personagens trazem-nos alguma angústia, porque parece que nos escapou algo. É provável que queiramos recuar e reler, só para garantir que lemos com atenção. Mas está tudo ali, a ser revelado no momento certo. Foi como se a autora nos quisesse deixar na dúvida para, depois, apresentar o quadro completo. Este jogo foi, em simultâneo, uma excelente maneira de nos aproximar da própria condição de Biá, cujas memórias começam a ficar turvas.

Há tanta perda nesta narrativa. Há dor, há sofrimento, há uma vulnerabilidade que só pode ser partilhada pela mágoa. No entanto, também há amor e braços que se amparam na queda, na loucura, na exasperação daquilo que não é compreendido. Eu acredito que é sempre preferível saber a verdade, por mais que dilacere, ao desconhecimento: deste modo, temos sempre forma de encerrar um capítulo, mesmo que demore. Não saber apenas prolonga a ferida. E é nesta dualidade que acompanhamos as protagonistas; é nesta dualidade que exploramos problemas de vidas comuns, que encontram uma maneira de interligarem as suas rotas e de se reconhecerem, como se as suas vivências fossem um espelho: há tragédias que a vida torna transversais.

Além disso, A Natureza da Mordida é um retrato que transborda poesia, que nos mostra como as relações de amizade são tão poderosas e como tudo pode desaparecer em segundos, porque estava tudo lá e nós não vimos. E estar, por vezes, pode ser a pior forma de repararmos.

🎧 Música para acompanhar: Dor Elegante, Itamar Assumpção

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