Affonso Duprat Revira os papéis como doido, abre as gavetas e não as fecha. Bagunça de pastas e elásticos esgarçados. Cadê? Abre caixas de sapato, sacode revistas e livros. Folheia os encartes. Nada. Onde está você? A prova da existência em risco. Daquele tracejar vertiginoso, uma variação, um passo de dança descompensado, uma curva contida mostrava que era possível. Doía. Nada de rabisco. Não era um rascunho perdido. Era um documento oficial, chancelado, carimbado e assinado pelo especialista. Naquela lauda batida pela máquina, o zigue-zague do traço era a prova que colocava ponto final na variação do enigma. Eletrocardiograma. O médico comprova: o coração dói. Hipóteses: assimetria, má formação, sopro. Tudo descartado. Como qualquer outro órgão, são as terminações nervosas que se eriçam e provocam choque. O paciente, na calada do ateísmo, observa o apaixonado doutor descrever as voltas ao redor de seu peito, como se dentro de si estivesse acontecido um grande recital, Baile ou qualquer espetáculo do tipo que formasse o princípio de uma dor. “Seu coração é um ouriço”. Sabia o cardiologista de alguma coisa? Ele logo pensou nos últimos dias e como as coisas se deram depois de torcer o pé no ensaio das semifinais. Não são só os seus defeitos. Mas eles também. Um conjunto de cavidades, veias e terminações nervosas. Estirou o tendão e foi colocado no banco. O sonho acabou. Assistia os amigos se esforçarem, com aqueles braços e pernas rodopiantes. Havia ali uma magia. Começou a perceber como é bom ficar suspenso no ar. À deriva. Elástico. Dentro de uma semana embarcaria para São Petersburgo. A prova final: o balé russo. Dias antes do voo, as lágrimas caíram e mancharam as louças. O peito apertou. Tudo sumiu aos poucos. Quando recobrou os sentidos, o homem de branco sorria. No dia seguinte, viajava para a Rússia e precisava levar: passagem, eletrocardiograma e algo para comprovar sua existência, agora que era apenas um ouriço. Imagem: O bailarino italiano Roberto Bolle/divulgação