Alguns extratos de leituras relacionadas com Clarice Lispector. São citas textuais, quer da Clarice quer de outros escritores. Acho que podia ser uma boa forma de entrar en contato com a autora e para iniciar a nossa conversa. Lá está quase tudo, sem dúvida o mais importante, depois podemos partilhar nossas leituras e impresões.

“Clarice Lispector, o olhar e o silêncio”.

Elena Losada Soler

 “A literatura brasileira, poderosa, muito rica e sempre em transformação, recebeu em 1943 uma surpresa: Perto do coração selvagem, o primeiro romance de Clarice Lispector, cuja obra posterior -e de maneira especial os seus contos e relatos curtos- mudou todos os estereótipos, linhas e tradições e confirmou-se como uma das voices mais originais e densas dos últimos quarenta anos”.

“Um romance insólito desde o seu título, tomado do romance de Joyce Um retrato do artista quando joven, era um texto insólito porque era um romance sicológico, feminino e urbano, construido a partir do monólogo interior e no qual a trama estava praticamente desaparecida”. 

 “Ela (Clarice Lispector) aportaría percepções, não fatos, um olhar de mulher, um olhar urbano e um olhar contemporâneo, ou melhor fora do tempo, sob o signo da lúa, elemento constante no seu mundo literário.  Um olhar de mulher, se calhar tambem uma escritura de mulher.  As personagens femininas constituem abrumadora maioria na sua obra.  Mulheres lunares, intuitivas, que falam do seu próprio corpo, não como objeto para outro, mas como fisiologia e fonte de vida, como mostra Angela Pralini no conto A partida do comboio”.

 “Clarice é capaz de captar as mínimas sensações, os mínimos detalhes e de saber que nada, por pequeno ou banal que possa parecer, carece de importância.  O mundo do quotidiano, do sem história, que tem sido perante séculos o mundo da mulher, pode proporcionar innumeráveis surpresas, chega com saber olhar e entender esses signos de uma realidade subjacente. 

Porque a vida esta cheia de banalidade transcendente.  Na obra de CL a consciência infeliz surge nas suas personagens a partir de um incidente anodino.  A partir desse momento o que foi iluminado vivirá o seu drama existencial.  O instante atúa como desencadenante da descuberta do absurdo.  O quotidiano transforma-se assim na porta do mistério. 

A introspecção a partir da consciência da própria solidão é outra constante na sua literatura.  A consciência humana -consciência de infelicidade- vai achar o seu contraponto na sólida plenitude dos objetos e dos animais.”

 “Escrever é para ela uma forma de salvação e tambem uma forma de condenação. Porque escrever é perigoso, é entrar em contacto com outra realidade e ser o seu veículo.  Tenho medo de escrever, é tão perigoso. Quem o tentou o sabe. Perigo de revolver no oculto (…) Para escrever tenho que situarme no vazio.  O mundo não pode abranger-se apenas com a inteligência e com a cultura.”

 E se eu tenho que usar palavras, elas têem que ter un sentido quase corpóreo…Quero eu poder apahar com a mão a palavra. 

Há muitas coisas a dizer mas não sei como as dizer.  Faltam as palavras.  Mas rejeito inventar outras novas: as que existem devem dizer o que se pode dizer e o que está proibido. 

(…) O silêncio é o misterio puro que o homem habita cheio de medo, tentando enché-lo com barulho para não ter que ouvir o próprio eu.”

 “O conto é o vehículo perfeito para a escritura de Clarice Lispector.  A intensidade e condensação narrativa e estilística que o género exige são perfeitos para esta prosa rigurosa, tensa, feita da fixação de instantes.”

 “Todo o mundo de Clarice é deliberadamente frío, e, como o gelo, queima.

Com os meninos e os velhos os animais são os grandes protagonistas destes contos (…) Os animais de Clarice -galinhas, pintainhos, macacos, cavalos, sempre domésticos e habituais- são a última essência da vida, do fundo de todo o humano, o seu espelho e o seu temor”. 

 “Finalmente, para terminar, um último tema capital nestes contos: a solidão.  Quase todas as personagens são seres solitários, geralmente sem um nome.”

 “É possível que o conto seja a forma literária própria do século XX, assim como no XIX foi o romance.  Nesta nova linguagem a Clarice Lispector foi uma maestra indiscutível.


 “Glamour e Gramatica”. 

Benjamim Moser

 “A lendariamente bela Clarice Lispector, alta e loura, ataviada com os desaforados óculos escuros e a copiosa joalharia de uma grande dama do Rio em meados do século, correspondia à moderna definição de glamour.  Tendo trabalhado durante anos como jornalista de moda, ela sabia como se apresentar para esse papel, mas é no antigo sentido da palabra que Clarice é glamourosa: como uma feiticeira, literalmente encantadora, cujo nervoso fantasma assombra todos os ramos das artes brasileiras.”

 (…)

Mas o seu glamour é perigoso. “Tenha cuidado com a Clarice”, disse um seu amigo, décadas atrás, a uma leitora.  “Não é literatura.  É bruxaria”. 

 “Se Clarice foi uma grande artista, também foi uma esposa e uma mãe de clase média. (…) Esta obra é o registo da vida inteira de uma mulher, escrito ao longo da vida inteira de uma mulher”. 

 “Clarice era fundamentalmente desprovida de uma tradição.  (…) Os seus antecedentes de imigrante tornaram-na menos permeável às ideias feitas da sociedade brasileira.  (…) Ser estrangeira, por outro lado, permitiu-lhe eximir-se aos modos de agir habituais.  Foi uma alienação cultural produtiva, e a outra face da alienação é a liberdade.  A experiência de Clarice com ambas ressoa em toda a sua vida”. 

 “Novos assuntos exigem uma nova linguagem.  Parte da estranha gramática de Lispector pode remontar à poderosa influência do misticismo judaico, no qual foi iniciada por seu pai.  Mas outra parte dessa singularidade pode ser atribuida à sua necessidade de inventar uma tradição”. 

 Tanto em pintura como em música e literatura”, escreveu Clarice, “tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu”. “O esforço de superar estruturas aparentemente inevitáveis animou a arte moderna.  Tal como os pintores abstratos procuraram retratar estados mentais e emocionais prescindindo de uma representação direta, e os compositores modernos expandiram as leis da harmonia tradicionais, Clarice desfez as estruturas reflexas na gramática”. 

“Com palavras viradas do avesso, ela conjurou todo um mundo desconhecido -conjurando, igualmente a inesquecível Clarice Lispector: um Tchékhov feminino nas praias de Guanabara”.