Fotografia da minha autoria

30 anos. Alma de viajante

O dia acordou sereno. Fora da minha tenda, há melros que assobiam o meu destino. Embora não seja capaz de traduzir a sua linguagem, sinto a fatalidade da melodia doce. Tão irónica. Sempre cortante. E pronta a deixar-me no limbo. Será que as vozes que me tentaram alertar dos infinitos perigos - que nunca vivi - carregam algum tipo de verdade?

Passei a minha vida inteira a escutar lamentos. E a gerir a imposição de ter que aceitar que é uma utopia estar sempre em viagem. Até que agarrei na mochila, bati a porta e nunca mais voltei. Fraquejei um sem número de vezes. E questionei a minha sanidade e a minha capacidade de sobrevivência. Sei que não parti como um louco, porque me preparei para este plano. Economizei o máximo que consegui e tenho vivido desse rendimento - e da boa vontade dos nativos, que se apaixonam por este meu sonho. Talvez por se reverem nele sejam tão recetivos a abrirem-me as portas. E eu fico-lhes grato, recompensando-os com o único talento que herdei da minha família: dioramas. É impressionante como algo meramente simbólico pode fazer as delícias de uma pequena comunidade.

A brisa fica mais intempestiva, salvando-me das minhas divagações. É o sinal de que chegou a hora de arrumar a bagagem e rumar até outra paragem. Ainda não sei para onde irei. Apenas acredito que tenho que o fazer. Para trás ficam as memórias. E à minha frente está o meu futuro incerto, que alimenta este meu apreço pelo abismo. Pela falta de raízes. E pela exigente - e imprescindível - noção de liberdade.