Interlúdio da Consumição das almas penadas
(motivo sobre foto de Sebastião Salgado)
Não sonham com a terra. Nada na terra.
Não sonham com nada.
As crianças aladas e pobres dos êxodos.
Sonham em ter asas, e as trazem consigo
quando nascem as seis da manhã de parto
por sorte, mas desnutridas no corpo,
neste corpo que roí e corrói como unicórnios
criatura talhada com a face da virgem lua
que brilha iluminando no final da tarde
quando partem para cavalgar no horizonte.
Não sonham com a terra. Nada na terra.
Não sonham com nada.
As crianças aladas e pobres dos êxodos.
São anjos que não tem batismo ao certo
nem conhecem o que seja pessimismo
são santas apostólicas sem qualquer altar
que seguem enfileiradas pelas estradas
sussurram consigo quem sabe orações
não lhe apercebem o cânone do sentido,
apenas murmuram como folha quando
de levem cai sobre a paisagem de outono.
Não sonham com a terra. Nada na terra.
Não sonham com nada.
As crianças aladas e pobres dos êxodos.
Não sonham construções ou mesmo casas,
não possuem na alma um eu profundo latente
desconhecem os milagres da bolsa de valores
desconhecem as lições de Heráclito e Platão,
porém aladas não se esquecem de nada, e,
ainda ontem desenterram o menino, porque ainda
este chorava lembrando-se do sol, logo silenciou,
e retornou ao silêncio da noite de sua habitação.
Não sonham com a terra. Nada na terra.
Não sonham com nada.
As crianças aladas e pobres dos êxodos
apenas sorriem ao olvido.
Eric Ponty é um poeta brasileiro. Nasce na cidade de São João del-Rei (Minas Gerais) em 1968. Para saber mais sobre Eric Ponty e ler uma entrevista do autor clique aqui.

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