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Mario Vargas Llosa
O Herói Discreto
Quetzal
Tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra

Escrever um romance de ideias, profundamente marcado por uma certa visão do mundo, parecendo que se está unicamente a contar uma história que merece ser contada, é feito apenas ao alcance de grandes escritores. Com a mão certeira para embrenhar a narrativa num percurso ideológico, Vargas Llosa assina em O Herói Discreto uma história folhetinesca com contornos policiais (na verdade, duas histórias que caminham paralelas até se fundirem numa só narrativa) onde o seu manancial de recursos literários se desenrola com todo o esplendor.

Entre Lima e Piura, duas personagens servem de eixo para uma reflexão sobre a sociedade peruana contemporânea. Mas Felicito Yanaqué, o empresário vítima de uma chantagem que alimenta a vertente policial do romance, e Ismael Carrera, o negociante atormentado pela má conduta dos filhos, não ofuscam a restante galeria, onde se incluem alguns personagens recuperados de obras anteriores do autor e várias figuras capazes de merecerem semelhante honra em romances futuros. Cruzando as histórias de Felícito e Ismael numa narrativa onde o suspense é receita bem aplicada, O Herói Discreto afirma, antes de qualquer outra coisa, a tese da honestidade e da rectidão anónimas que fazem avançar o mundo (permitindo que sociedades onde a corrupção e a violência são regra se libertem desse fardo, mesmo que aos poucos). Perante a mestria narrativa e o desfile de recursos bem empregues pelo mestre peruano, pouco importa se a tese nos inspira simpatia ou um riso de descrença.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Out. 2013)