07
Jan23
Patrícia
Finalmente acabaram as hostilidades festas e agora podemos voltar todos a ignorar os outros e a deixar de fingir preocupação e empatia, de fingir que gostamos de toda a gente da família e dos que não são da família. Talvez conheçam pouco desta minha faceta mas as festas trazem ao de cima o pior que tenho. Fingir alegria, fingir que está tudo bem, deixa-me exaurida e vazia. Sobrevivi e nem posso dizer que correu muito mal mas é um alívio ter terminado.
Eu adorava o Natal. Adorava as noites de consoada à lareira, adora os almoços de dia de Natal com a casa cheia, fui durante muitos anos a "cola" que juntava toda a gente. Mas as cadeiras foram ficando vazias e actualmente, ver uma das pessoas que mais amo desaparecer um bocadinho a cada dia que passa deixa-me de rastos. Toda a minha atenção e preocupação vai para ela e torno-me protectora. E isso implica protegê-la de tudo o que a deixa desestabilizada, confusa ou triste. Uma casa cheia, um jantar, uma data festiva é o suficiente para que tudo de torne mais difícil do que já é normalmente e eu torno-me esta espécie de grinch que gostava de ter o poder de roubar o Natal.
Foram os livros que me ajudaram a ultrapassar esta fase das festas.
Acabei o Mãe, doce Mar, do João Pinto Coelho, um livro bastante diferente daquilo a que o autor nos habituou e isso é muito bom. Gosto de ler um livro e não sentir que o estou a ler pela décima vez. Gostei de conhecer Noah e gostei muito do pouco que conheci de Patience. Não posso dizer que o final é totalmente surpreendente porque não é mas isso não me estragou a leitura. Não posso, sem dar spoilers, falar muito sobre o que me deixou a pensar, a reflectir sobre actos e consequências, sobre o que nos faz agir e reagir e em como é muitas vezes difícil vivermos dentro de nós. Um livro com personagens que, no todo ou em parte, nos reflectem torna-se sempre pessoal.
Como recebi vários livros este Natal (deve ter sido um milagre, era coisa que não acontecia há anos), passei o dia de Natal a ler o Um casamento Americano, de Tayari Jones, um dos que chegou cá a casa embrulhado e com um laço. Foi uma escolha perfeita e não percebo como não se falou mais deste livro. Com tradução da Tânia Ganho, é um daqueles livros que nos faz pensar e que consegue a proeza de nos fazer pensar ao mesmo tempo que que nos conta uma história que nos obrigada a ler página atrás de página. Celestial e Roy são um jovem e feliz casal até que ele é preso por um crime que não cometeu. Não é a dúvida "é culpado ou inocente" que este livro explora - sabemos sem sombra de dúvida que ele é inocente deste o primeiro momento. Mas inocente ou não, Roy fica preso vários anos. E se Roy muda por estar preso, onde o tempo se conta de forma diferente, Celeste muda porque não o está e porque a vida continua. Este livro é sobre as consequências dessas mudanças, sobre a vida que acontece, sobre preconceito e racismo, sobre justiça, amor e amizade. É mesmo uma pena que este livro passe despercebido.
E porque uma história bem contada é sempre uma boa forma de acabar um ano e começar outro fresquinho, comecei a ler outro presente de natal. A Aldeia das Almas desaparecidas do Richard Zimler é a minha leitura actual, posso dizer-vos que estou quase a acabar mas falamos sobre ele no próximo post.
Para todos boas leituras, um ano cheio de bons livros.

