Mensagem dos presos políticos do Forte de Peniche a Aquilino Ribeiro

 «Senhor Aquilino Ribeiro:  
 Neste ano de 1963, em que perfaz meio século de labor literário, queira  escutar mais esta voz que se vem juntar ao coro amigo que o saúda – voz  que chega do fundo duma prisão, falando pela boca de mais de uma  centena de portugueses encarcerados, há longos anos, pelo único crime  de  muito amarem a liberdade do seu povo, o progresso da sua Pátria, a  Paz   no  mundo.
 Outros dirão dos méritos do escritor, da pujança do seu estilo, da verdade  das personagens que criou, da seiva espessa que lhe sobe das raízes  mergulhadas no povo e na terra, e vai florescer em fecunda alegria de viver  nas páginas dos seus livros. Outros dirão ainda do acordo exemplar entre o  homem e o artista, e da íntima comunhão da sua vida com as vicissitudes  da vida nacional nos últimos 50 anos. Outros dirão – e nós estamos  também entre os que celebram a glória do escritor, sem dúvida uma das  figuras cimeiras da nossa história literária. 

Mas outra é a especial saudação que o nosso coração e o nosso   pensamento nos ditam e aqui lhe trazemos. 
 Queremos saudar o cidadão corajoso e íntegro, que não se vendeu nem  dobrou aos poderosos e aos tiranos, que denunciou com desassombro a  torpe mentira dos tribunais políticos e a ferocidade da repressão policial,  que exaltou a revolta popular, e que soube fazer frente, com o cajado firme  da sua pena de escritor, aos lobos fascistas que assolam os povoados da  nossa terra. 
 Queremos saudar o intelectual generoso e lúcido, que tantas vezes soube  erguer alto a sua voz em defesa da paz, contra o furor dos fautores da  guerra. Queremos saudar o homem viril e fraterno, pela sua inabalável  confiança nas forças populares e no destino dos homens, nas suas  conquistas científicas e no seu progresso moral, e confiança que o leva,  em  meio da noite fascista e ao cabo de setenta anos duma vida tantas  vezes dura, a saber ainda olhar em frente, olhar para o sol, e apontar aos  companheiros a visão estimulante do futuro radioso da humanidade. 
 Senhor Aquilino Ribeiro: Longa vida lhe desejamos! Para que possa  prosseguir por muitos anos ainda no seu belo trabalho criador. Para que a  sua figura altiva de lutador se possa manter presente na frente de combate  pela Democracia, a Justiça e a Paz. 
 E para que, sobretudo, em breve possa ver o sol esplendoroso da Liberdade  brilhar de novo e para sempre sobre o nosso querido Portugal.» 

 Os presos políticos do Forte de Peniche.