11.04.18

Estamos algures em 2035, o meu filho, recentemente chegado à maioridade, encontra nas prateleiras da biblioteca lá de casa um que dá pelo nome de “Fogo e Fúria” e começa a folheá-lo e a ler algumas partes. Passado algum tempo abeira-se da minha pessoa com um ar divertido e comenta o grau de imaginação do autor para conseguir colocar no papel uma história estapafúrdia sobre o presidente do, à data, país mais poderoso do mundo, onde este aparece retratado como um perfeito idiota, desequilibrado, mimado e imprevisível. Eu rio-me, tento explicar-lhe que o livro não é de ficção, mas ele devolve-me a risada e não acredita.
Ao acabar de ler o livro “Fogo e Fúria” de Michael Wolff ocorreu-se-me a possibilidade de acontecer o momento acima descrito porque é efetivamente possível.
A livro podia ser uma excelente obra cómico-dramática se não soubéssemos que será, acredito na sua maioria, verdadeira. Todos os contornos da história, a começar pela própria eleição de Donald Trump para presidente dos EUA, são quase absurdos, ainda que infelizmente verdadeiros.
Pensar que temos, e vamos ter, como presidente do país mais poderoso do mundo um individuo com as caraterísticas que o autor aqui apresenta é praticamente imaginar que vivemos uma história de ficção. Como é que é possível? Trump é um personagem, coisa que não seria um problema se ele não fosse presidente.
Os estragos que este homem pode fazer podem nos afetar a todos, por isso, se pensarmos bem no tema, a parte mais divertida do livro pode tornar-se trágica. Trump é um idiota sentado na cadeira mais poderosa do mundo, rodeado de lacaios e de pessoas, muitas, que não serão provavelmente as mais inteligentes e capazes. Sem ser alarmista tem tudo para correr mal.
Ainda que uma parte do livro não seja desconhecida na maioria que foi acompanhando o processo de eleição e o primeiro ano do mandato de Trump, existe todo um outro detalhe sobre momento concretos, decisões tomadas, influências nas decisões que são desconhecidas e que nos conseguem deixar de queixo caído. Há partes do livro onde parece existir alguma falta de ligação entre momentos e contextos, mas acredito que isso se possa dever ao facto de o autor não ter conseguido construir a 100% o puzzle porque certamente houve informação que lhe escapou, ou não teve acesso.
Não seria necessário que mais de 50% do livro fosse totalmente exato e verdadeiro para ser preocupante e profundamente perturbador. Repito a pergunta: como é que é (foi) possível?
Recomendo vivamente a leitura deste livro e desafio quem o faça a encontrar paralelo entre esta realidade e a realidade que hoje se vive em muitas empresas: pessoas que são eleitas/nomeadas/promovidas para cargos, com um discurso populista e lambe-botas, sem competência e/ou vontade de trabalhar e sem preocupação com os outros e com uma necessidade de bajulação permanente. Normalmente dá mau resultado.
Excelente opção de leitura, e não é preciso gostar de política.