Nunca direi quem sou
literatura portuguesa, resenha literária, ficção, autores clássicos
Retomando o ritmo das reviews atrasadas com um conjunto de escritos de um autor português. Nunca direi quem sou é um conjunto de pequenos textos ficcionados sobre pessoas reais, como Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira ou Clarice Lispector, dando um lado profundamente pessoal a autores dos quais por vezes pouco mais sabemos para além da sua obra: citando a página da editora, Quem poderá saber quem foram, se nem os próprios o disseram? Vergílio Alberto Vieira propõe-se, assim, a fugir de si mesmo, a entrar na pele e falar ficcionalmente por estes autores, dando-se a conhecer enquanto dá também a conhecer estas pessoas, quem são para além da sua obra. Fiquei com uma enorme vontade de pegar n'A Aparição, que nunca li, ou no Ficciones; de investigar mais personagens como Sapho ou Epitecto, de finalmente comprar um livro do Mário Cesariny ou do Herberto Helder (Feira do Livro, estou a olhar para ti). Às quartas, a preia-mar devolve à ilha os que a peregrinação levara fazendo escala noutros portos, solitários marinheiros que a deriva não mais trouxe a terreiro, desde o último equinócio, ou antecedendo o solstício de verão, que as quartas, tanto podiam ser segunda, ou até sexta, e navegar sem mestre não é aviso à navegação de bebedor nocturno, nem ofício de rebocador acostumado a manobras de doca seca; acostagem é arte de versado, comporta risco; e a atracção, perícia, em cais-de-sodrés onde o venéreo mal cedo engulha, e a cirrose a seu tempo mata. O capítulo sobre (ou, se preferirem, narrado na voz de) Clarice Lispector centra-se n'A Paixão Segundo GH, dando nova vida à barata que nos atormentou a todos. É uma obra pequena mas sem dúvida interessante, um livro para quem gosta de livros: de ler sobre eles, de os ler, de descobrir em cada página uma nova leitura. 4/5 Podem comprar esta edição aqui.
Texto originalmente publicado em I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out