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Jan21

Maria do Rosário Pedreira

Sempre que pergunto a um escritor ou editor norte-americano quem acha que é o maior escritor vivo do seu país, a resposta é Don DeLillo (e acescentam que já devia ter recebido o Nobel). Isto já acontecia, aliás, quando eram vivos autores como Philip Roth,  David Foster Wallace ou Joseph Salter, por exemplo. Para mal dos meus pecados, nunca fui grande fã do senhor DeLillo, sempre gostei mais das vozes de Roth ou Cormac McCarthy, só para citar dois grandes, mas, claro, os gostos não se discutem e talvez o problema seja meu e me falte inteligência para a ironia de DeLillo. Ele é, sem dúvida, um escritor parecido apenas consigo, o que diz muito das suas qualidades, e merece ser lido mesmo por quem não o aprecia especialmente. Li por isso a sua última novela publicada em Portugal (O Silêncio), e de uma penada, até porque é um livrinho de meras 80 e tal páginas. Imaginem então um apagão electrónico que dá cabo de tudo quanto é sistema tecnológico; e assistam a uma espécie de Terceira Guerra Mundial através do quotidiano de dois casais norte-americanos (amigos um do outro) e de um jovem professor de Física do Secundário que foi aluno de uma das mulheres. O primeiro casal vem num avião e espera aterrar em segurança em NY quando... (não vou contar); o outro, na companhia do jovem professor, prepara-se para ver a final da Super Bowl na televisão quando... (também não vou contar). Esta inesperada quebra de ligações (deixam de funcionar elevadores, telemóveis, etc.) é o mote para percebermos o que aconteceria a cada um de nós e ao mundo se de repente houvesse um apagão digital e em que é que nos poderia ajudar a Teoria da Relatividade de Einstein papagueada por alguém enlouquecido. O pequenino romance foi terminado pelo autor antes da pandemia, mas curiosamente avisa-nos bastante sobre a catástrofe do presente. Interessante e actual, mesmo que o autor não faça as minhas delícias.