ilustração Ligia Zilbersztejn

Até de galinha eu confesso que tinha muito medo. Ok, eu sei que galinha parece inocente. Mas aquele cheiro, aquela bosta escorrendo líquida, aquele barulho terrível que vinha acompanhado de uma tentativa infeliz de voar

Maria Paula Curto

Desde que me entendo por gente, eu tenho medo de bicho penado. Sim, bicho que tem penas. Esquisito? Concordo, mas eu sou assim. Não faço ideia de como isso começou. Aliás, eu tenho até melhorado, pois antes, eu poderia dizer que entrava em pânico ao ver um pato. Um simples e fofo patinho branco. Eu olhava para aquele ser e já imaginava um monstro pior que Jason ou Freddy Krueger! Imagine então uma águia ou um urubu? Credo!! Era de enlouquecer! Tudo bem, talvez o urubu venha com alguma dose de medo futebolístico por eu ser do bacalhau, vai saber… 

Talvez esse medo tenha começado na infância, quando eu fui perseguida por um pato ou marreco ou ganso. Nunca soube a diferença. Só saí correndo feito louca, morrendo de medo de aquele ser me bicar e esqueci de pedir o RG para conferir a espécie. Para mim, pouco importava. Só queria me livrar daquela mordida doída e torcer para não tropeçar pelo caminho e me tornar refém do penado. Como no pior dos filmes de Hitchcock: Os Pássaros. 

Se você ainda duvida, esse meu medo pode até hoje ser conferido nas fotos de infância, tiradas no parque de São Lourenço, onde meus pais insistiam para que eu desse miolo de pão para os patinhos e eu, com um sorriso amarelo de quem não conseguia escapar da situação, me colocava atrás da mureta, a uns 5 metros de distância, e fazia “arremesso de pão à distância”. Se isso fosse um esporte olímpico, eu seria uma grande medalhista e teria batidos todos os recordes. Certeza!

Até de galinha eu confesso que tinha muito medo. Ok, eu sei que galinha parece inocente. Mas aquele cheiro, aquela bosta escorrendo líquida, aquele barulho terrível que vinha acompanhado de uma tentativa infeliz de voar me deixavam aterrorizada. E se aquela gosma grudasse em mim para todo o sempre? Ou pior: e se quando eu tentasse voar, eu emitisse o mesmo som bizarro e caísse a apenas dois metros do ponto de partida? Eu conseguiria viver com a sensação de que minhas asas só serviriam para chocar ovos que nunca vingariam, mas que somente fariam parte do cardápio do desjejum de poucos? Não. Galinhas, definitivamente, me apavoram. 

Papagaio? Papagaio era o pior dos meus temores. A imagem do malandro Zé Carioca ficava muito distante da minha fobia. Teve uma vez, inclusive, que eu fui salva de ser atacada pelo papagaio da vizinha, porque o cachorro dela veio em minha defesa. Santo Tutty! Não sei o que seria de mim se a sua raiva pelo tal monstro que a vizinha chamava de louro não fosse maior do que o meu pânico ao ver aquele pequeno ser, solto, caminhar alucinado pelo chão da sala e, literalmente, escalar o sofá para furar a sua vítima – no caso, eu – sem dó nem piedade! Papagaios são muito impiedosos, já perceberam? E outra, eles possuem a característica do mais malvado e perverso dos animais: eles falam!!!

O único ser penado que eu sempre consegui chegar perto é o pombo. Justamente ele, eternamente acusado de trazer inúmeras doenças, de ser o “rato de asas”, ou o “rei da toxoplasmose”. O pombo eu encarava. Motivo? Não sei ao certo. Talvez por eu ter ajudado um certo pombo na infância, que tinha o bico todo torto e não conseguia comer o milho que era jogado nas praças. O coitado era empurrado pelos demais, e quando ele retornava à cena, já não restava mais um grão para contar história. Talvez pela imagem associada à paz.

Talvez por sentir pena de alguns que eram pintados de azul ou de verde, que eu via na Cinelândia, no RJ, a caminho da minha escola (muita maldade pintar os bichinhos, não?). Ou talvez pela sua insistência em viver, mesmo que sem uma “função”. O pombo não é “silvestre”, protegido pelo IBAMA, ameaçado de extinção, mas também não faz parte da lista de proteínas que devemos ingerir (ou, pelo menos, não deveria…). Não canta nem encanta e não serve nem mesmo para ser encarcerado numa gaiola e ser exposto como um bibelô colorido. Ele não. Ele simplesmente existe. Em praças, em bandos, às vezes atacado e agredido, xingado e como ele reage a tudo isso? Cagando, solene, em quem – ou no que – estiver por baixo. Creio que, no fundo, o que eu sinto pelo pombo é uma certa inveja…

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP. Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.