Um dos primeiros posts que eu escrevi para o Meia Palavra, lá nos idos de agosto de 2009, falava da paixão de minha personagem Victoria White pela literatura fantástica do Século XIX. A personagem existe mais ou menos desde 2004, quando o fórum que frequentava era o Sonhar.NET, e nasceu de uma brincadeira com um conto do Cabal que, como Anica e eu, migrou para o Meia Palavra. Victoria nasceu vampira quando tudo que eu conhecia de vampiros era o RPG e uns parcos filmes. Sabia da existência de Anne Rice e Bram Stoker, conhecia histórias de terror, mas não as tinha lido.
Victoria nasceu vampira por um momento de criatividade, uma resposta bem humorada a uma excelente história do meu amigo. Com o tempo, eu, a (hoje famosa) Ana Recalde e o Cabal criamos todo um contexto para esses personagens, e tentamos retomá-los num blog, mas a história ficou inacabada. Mas construir Victoria foi um exercício tão interessante, tão desafiador, que gostaria de retomá-la um dia, transformar sua história num romance. Caso não consiga, eis um retrato de Victoria:
Victoria nasceu de uma família abastada em Santos, em 1768. Aos 17 anos se apaixonou por um forasteiro e com ele fugiu para o Velho Continente. O forasteiro, de belos olhos dourados, a leva por toda a Europa e a alguns países da Ásia, ensinando-lhe história, geografia, idiomas, bem como a ler e escrever como uma dama, já que a educação feminina para sua família no Brasil se limitava a corte, costura, deveres domésticos e desenho, como uma boa dama austeniana.
Por um motivo desconhecido, Victoria e seu amante estão em Paris quando estourou a Revolução Francesa. É neste exato dia que Victoria deixa de ser humana. E é neste dia que seu amante a abandona. Mas ele não só a abandona, ele suga sua memória dos momentos que passaram juntos. Minha personagem é lançada num vazio, enlouquecendo lentamente, vagando pelo mundo da melhor maneira que consegue, viciando-se em sangue tóxico, conhecendo o submundo e as subclasses, agindo como prostituta de luxo ou homem, e finalmente se lançando em um delírio de torpor na Inglaterra no final do século XIX.
E aí sua história fica interessante. Ela acorda em pleno século XXI, de volta ao Brasil, mas não em Santos. Ela perdeu todo o século XX e tudo o que ele representou. Para ela, Primeira e Segunda Guerras, Vietnam, Gorbachev, carros de corrida, computadores, iPods e fotografias coloridas são tão parte da ficção científica como hoje é a Enterprise. E aqui o negócio ficou divertido, pois a minha pesquisa começou a pegar forte.
Para construir uma personagem inteligente o suficiente para saber se portar num século em tudo surreal, ela teria que ter vivido o suficiente para presenciar grandes mudanças sociais. Por isso dei-lhe todo o século XIX. Mas também tive que pesquisar tudo que Victoria não conheceria. E minha biblioteca começou a se encher de “breves histórias” disso ou daquilo, guias de moda, afinal, é um de seus prazeres, toda uma pesquisa sobre Thomas Edison e Frères Lumière, dicionários de gírias vitorianas, livros sobre loucura, sobre amnésia, sobre vampiros.
E quanto mais pesquisava, maior meu respeito pela profissão de escritor ficava. Pois os leitores são críticos. E, digo por mim, muito críticos. Um detalhe fora do lugar, e minha Victoria perderia todo o crédito como personagem. E o escritor tem que saber tanta coisa de seu personagem que não vai para os livros. Sua cor favorita, seu tipo de homem, seu encontro ideal. Como se comporta quando está sozinha para ninguém ver. E em um certo momento ela deixa de ser uma criação sua e ganha vida. E exige caminhos que são dolorosos de escrever, difíceis de aceitar.
Como Victoria só tenho mais duas personagens: Agatha Brandão Tavares, uma rebelde dos anos 50, artista e bissexual que me fez acumular revistas Cruzeiro em casa; e Kallisti, que faz tão parte de uma fantasia/sonho meu que animou meu gosto por design de jóias. Mas Victoria ainda é a campeã na pesquisa. E quando digo que sou um amálgama de personagens, é delas que falo. Dessas personagens de quem não consigo me livrar, e cujas histórias não consigo terminar.