Caspar David Friedrich, Caminhante Sobre o Mar de Névoa, 1818, óleo sobre tela, Hamburger Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha.

Em tempos de redes, quando quase todo gesto nosso cai nas redes, numa dispersão hipnótica a cada toque, descobrir um ponto de concentração, de retomada de si, parece urgente; questão de higiene mental. 

Os de língua inglesa concentram isso em mindfulness: é urgente ter algo onde colocar atenção plena; assim absorvido naquela tarefa, a gente pode deixar o mundo exterior fluir.

Pouco importa que nos ignore o mundo lá fora: como o personagem de Dostoievski – vendo o mundo todo exposto como numa casa de vidro: todos expondo-se todo o tempo, tudo; precisamos ter nosso subsolo onde refazer forças.

Escrever pode ser uma doce dopamina; um antidepressivo natural. Porque é uma alegria: o mais visível sinal de sabedoria: uma alegria constante; os dedos no teclado chamando alegria, como os pés do indígena chamando chuva.

Já era a ideia de um texto como esse aqui: ter a ousadia de reivindicar uma sabedoria que, com leveza, possa se misturar a tudo – e o texto tenha o espessor tônico da vida. 

Criar e querer são desafios. Às vezes é também uma imprudência: alguém vai advertir sobre o que devia evitar; mas o coração, só, sabe o que se deve fazer.

Todo texto saiu de uma necessidade funda, vital, de alguém que ousou. Et le monde sommeille par manque d´imprudence. O mundo fica um tédio, por falta de imprudência.