Fotografia da minha autoria

«Escrever é deixar uma marca»

O meu caderno está sobre a mesa de madeira. Abro-o. E logo surge uma folha em branco. Essa tela imaculada pode, em certas circunstâncias, representar uma fonte de angústia. Mas, para mim, sempre foi um mapa de infinitas rotas e possibilidades, que recolhe as fronteiras para que eu viaje livremente por esta alma inquieta.

Quando me sento a escrever, sei que o mundo do lado de fora da janela não existe. Entro na minha bolha e dou corda à caneta. Avanço, recuo, risco e reescrevo. A inspiração não traz um traço exclusivamente fluído, também me obriga a paragens mais bruscas. E quando a energia é muda, prefiro acalmar as palavras e não insistir. Porque se há algo que priorizo no meu processo criativo é o respeito pelas ideias e pelo tempo que necessitam para maturar. Em primeira instância, as letras são o meu refúgio e não um problema. Portanto, entro em pausa e aventuro-me por outro caminho, mas sem esquecer o texto que tinha iniciado. Porque, se assim fizer sentido, voltarei mais tarde, tornando-o no meu ponto de partida para mais uma realidade paralela.

Há inúmeros tópicos que me fascinam, por isso, as minhas maiores inspirações têm origem nos detalhes que observo, na música que me invade a casa, nos livros que me emocionam, nas séries que viciam, no silêncio que conversa sempre mais do que aquilo que imaginamos ou que nos abraça no vazio intencional. Atiro-me, não tão poucas vezes assim, sem rede. E deixo que a minha imaginação deambule sem destino. É por essa razão que, na hora de escrever, alinho todas essas particularidades que me soltam do meu corpo e que me transportam para múltiplos cenários, experienciando situações utópicas e oferecendo uma voz a identidades com as quais nunca me cruzei. E esta é a magia da escrita. Porque posso ser o que eu quiser, privilegiando registos distintos que guardo nas minhas gavetas internas.

Embalo as palavras e deixo-me ir. Sentada no chão, à secretária, numa esplanada ou no metro, não reflito sobre este momento transcendente, no entanto, coloco-me inteira. Invento o alinhamento de raiz ou faço-me acompanhar de toda a informação que seja pertinente para partilhar projetos que me movem. Sinto um ligeiro arrepio. Entusiasmo-me. Também tenho dúvidas e não oculto o receio. Respiro. Invisto nesta forma de expressão que me é tão própria e natural. E vivo cada publicação intensamente. Porque as palavras são feitas de emoções. E eu transbordo todas as que me cabem no peito.

É, portanto, fácil definir-me: sou feita de letras. E quando me sento a escrever estou em paz - dentro e fora de mim.

[Reflexões sugeridas pela