Um Útero é do Tamanho de um Punho
Livro para o qual estava super entusiasmada. Lembram-se?
Já aqui referi várias vezes a minha enorme dificuldade a ler e comentar poesia. Este post não será a excepção. Angélica Freitas escreve, para este volume, 35 poemas sobre mulheres, tentando definir mulheres, por vezes tentando-se definir a ela própria, no meio de uma visão cultural e identitária, crítica e humorística.
Ou seja, não é mais um livro sobre ser mulher, ou condição feminina; é um livro que pega na perspectiva. Pega nos assuntos mais banais, nos maiores clichés, de um novo ponto de vista, sem autodepreciação ou pena de si mesma por ser mulher.
queridos pai e mãe
tô escrevendo da tailândia
é um país fascinante
tem até elefante
e umas praias bem bacanas
mas tô aqui por outras coisas
embora adore fazer turismo
pai, lembra quando você dizia
que eu parecia uma guria
e a mãe pedia: deixem disso?
pois agora eu virei mulher
me operei e virei mulher
não precisa me aceitar
não precisa nem me olhar
mas agora eu sou mulher
--- mulher depois
É um livro feminista, é certo - o título nem deixa antever outra coisa. Um útero terá o tamanho, mas não a força física de um punho (será? Com a sua capacidade de albergar uma criança?), mas, sendo um órgão apenas feminino, é impossível ver o livro de outra forma. Mas não é um livro banal. Há denúncia, é certo, mas é uma observação, um relato, como se pode ler logo no poema que abre o livro, uma mulher limpa.
Muito do livro pega, no entanto, naquilo que é complicado em ser mulher - apesar de ser um livro brasileiro, diria que a aplicação das temáticas não se cinge apenas ao Brasil. Falam sobre mulheres transexuais, homossexuais, sobre mulheres bonitas, feias, magras, gordas, sobre o que as mulheres vestem, sobre o que as mulheres querem. Os poemas funcionam melhor num todo do que isolados, soltos, portanto diria que é um livro para ler seguido; mas o poema acima é brilhante e senti que merecia aqui o seu destaque.
É um livro para ler seguido, portanto - mas é um livro que se lê num instante, ora, portanto não há desculpas para não o fazer.



