Pintura: “Penelope and the suitors“/ John William Waterhouse, 1912.

As engrenagens assumem o controle e eu fico à deriva, navegando pelos outros pedaços de gelatina cinzenta que não estão no comando das minhas funções motora

Isabela Nunes*

Estamos deitados no sofá. Na penumbra, tudo é cinzento e a única coisa que permanece são os contornos de sua silhueta. Ele está sobre mim, beijando o meu pescoço. Forço os ouvidos para tentar descobrir o que os outros, livres, fazem lá fora, onde a festa continua, mas não ouço nada além da respiração ofegante de Tomás. Se pudesse pensar, me perguntaria o que eu estava fazendo ali. Ele para e me olha; sinto a luz em seus olhos lutando contra o cinza para chegar até mim. Não gosto que ele me olhe, assim, desse jeito patético. Ele diz: você tem olhos lindos, enquanto seu dedo ensaia uma espécie de carícia em minha bochecha. Tento impedir o impulso de rir diante da tentativa cafona de transpor para a vida real uma cena de livro clichê. Estou a ponto de dar gargalhadas, mas me controlo e, com um risco de sorriso morto em minha face, respondo:

— Você nem consegue me ver para saber se meus olhos são bonitos ou não, Tomás.

Ele dá de ombros — seu espírito de romântico incorrigível não permitirá que dê o braço a torcer ou admita derrota. Volta a me beijar. Suas mãos seguem em direção aos meus seios; mal tenho seios para serem apalpados, mas ele tenta mesmo assim. Eu afasto a mão dele. O jogo continua. Pescoço, olhos, beijos, seios. Finjo ardor, excitação e desejo. Finjo que gosto de beijar e ser beijada por aquele homem cinza em cima de mim. Por dentro, gelo árido, um autômato,  mas sei que não pareço assim para ele; ah não, eu já aprendi todos os truques de língua e mãos e sons que o deixarão satisfeito consigo mesmo. Engrenagens enferrujadas esboçam um gemido e furtivamente giram de volta para seu esconderijo cálido, onde terão alguns segundos para se ocupar de outras coisas que não produzir sons agudos, como pensar no fato estranho de que é possível procurar tédio no Google e encontrar uma página que diz: tédio e seus sintomas, como se fosse uma doença. Passo as mãos pelo cabelo dele, arranhando as unhas contra sua cabeça como se quisesse separá-la do corpo. Tomás tem o cabelo volumoso e macio. Pelo cheiro nauseante, percebo que usa shampoo de chocolate. Ele para de novo e me olha de novo. Quero dizer:

Não me olhe assim, Tomás. Não estou aqui. Não sou sua história de amor.

As engrenagens acionam um botão e o que sai é:

— Tenho que ir, Tomás. Já está tarde.

Não está tarde e eu não quero ir, quero aproveitar o resquício de festa que me sobrou. Mas ficar significará continuar o teatro, lá fora, com o braço dele pesando meu ombro, me sufocando, me enclausurando, me colocando sob uma redoma imaginária e hermética, e só de imaginar a sensação do braço dele em mim assim faz com que se desperte no meu estômago uma vontade súbita de fugir boca afora.

Tomás, eu deveria vomitar na sua cara.

***

  • Clytemnestera/ John Collier, 1882.

— Pra falar a verdade, eu não gostei muito de ficar com ela, Ana. Tão possessiva. Me lembrou a minha ex; você sabe a história, né? Eu te achei bonita desde que seu primo me mostrou sua foto pela primeira vez. E aquele dia, na casa dele, que a gente jantou (lembra?), eu queria muito ter falado com você direito, mas não deu, você sabe. Enfim. Muito bonita mesmo. Por que você não viajou com a gente pra praia, em vez dela? Eu pagava pra você ir na hora. Eu até disse pra ele que preferia que fosse você.

Porque eu não queria, Tomás; por isso. Seu babaca rico e prepotente. Eu nem te conhecia. Em que planeta eu cruzaria seiscentos quilômetros pra passar o ano novo com alguém que não conheço, ainda mais um idiota que nem você? Se eu tivesse ido, você estaria falando de mim, agora, como fala dela? Como se não tivesse gostado do prato exótico que pediu?

— Ah, eu tinha planos, não deu. Mas obrigada — dou um risinho — Também te achei muito bonito.

Pensarei em como contei a ele sobre meus medos da morte e de Deus e do amor como se fosse a amante e confidente perfeita.

Ele me beija. Coloco as mãos em volta do seu pescoço. Tomás tem o cabelo desarrumado, cortado bem curto, quase rente ao couro da cabeça. Tem uma cara achatada e quadrada em que alguma coisa parece não funcionar. De olhos fechados, ainda consigo ver seu rosto franzino. Ele beija esquisito, como se estivesse lambendo um picolé aos poucos para não terminá-lo rápido demais. Tento beijá-lo do jeito certo, mas dá muito trabalho e, depois de um tempo, simplesmente desisto e deixo que ele faça o que quiser. As engrenagens assumem o controle e eu fico à deriva, navegando pelos outros pedaços de gelatina cinzenta que não estão no comando das minhas funções motoras. Amanhã, acho que vou pensar nesse beijo e sentir vontade de tomar banho. Me lembrarei do rosto achatado de Tomás contra o meu, me olhando como se quisesse me engolir, e de suas mãos grandes envolvendo meu rosto e empurrando meu nariz contra o seu como se aquele fosse o momento mais romântico da história do mundo, e de sua língua de picolé se insinuando para dentro da minha boca, e me perguntarei por que não disse não e saí correndo. Pensarei em como contei a ele sobre meus medos da morte e de Deus e do amor como se fosse a amante e confidente perfeita, como se ceder pedaços de mim, assim, tão casualmente, não fosse minha morte. Por que não fui embora? A pergunta de um milhão de reais.

E me lembrarei de seus olhos de jabuticaba refletindo meu rosto como uma piada ruim, seu olhar espalhando-se pelo meu corpo, deixando manchas de náusea irreversíveis em meu estômago.

— Ana? Alou?

— Ah, desculpa. Viajei aqui.

— Tava falando que a gente podia se ver de novo amanhã, antes de eu voltar pra São José. O que acha?

Abro os olhos, lentamente. Não quero te ver nunca mais, Tomás. Você é o babaca rico mais hipócrita e prepotente que eu já conheci na vida. E você beija mal.

— Tudo bem.

***

Pintura: “Penelope and the suitors“/ John William Waterhouse, 1912.

Nos cinco primeiros minutos, você já sabe tudo que precisa saber. Primeiras impressões são irreversíveis. Foi o jeito que ele me olhou, investigando meu rosto por alguma reação, inclinando a cabeça, ansioso, esfomeado, desejando saber se eu o via, esperando um sorriso que o incentivasse. Foi menos o olhar do que a tentativa de escondê-lo, vergonhosamente exposta em seu rosto e reluzindo na íris escura que se revelava e se encolhia no canto do meu campo de visão. O olhar furtivo que dizia: entrego-me a você hoje mesmo e por inteiro, desde que você abdique de todo o resto e se transforme no espelho pelo qual me refaço. Foram os olhos, sim, os olhos, que traíam sua vaidade comedida, perscrutando: viu que coisa inteligente eu acabei de dizer? Viu que filmes e livros e filósofos interessantes eu conheço? Viu como sou engraçado? Como conheço todas essas pessoas e lugares e linguagens que você mal sabia que existiam? Viu como navego bem entre eles, como te mostrarei o caminho se você ficar? Desesperados, derramavam: fique, venha, veja minha grandeza, me ame e me admire com seus olhos calmos de mulher, sim, fique, me olhe, me veja, me revele. Colocarei meu braço sobre você, diziam em segredo, te beijarei sob os olhos de todos os outros, todos vendo que você me vê, empurrarei seu corpo contra o meu, e o mundo todo saberá que você é minha, o acessório que completa a fantasia de mim mesmo, espelho, espelho meu.

Foi o jeito que ele me olhou com olhos de quem me amaria com força e fervor; os olhos de Páris, de Romeu, de Hamlet, atravessando o tempo, o espaço e as frágeis barreiras que separam uma pessoa de outra com a força bruta do amor épico que rouba e mata e afoga. 

Em cinco minutos, eu sei. Olho-o de volta com um sorriso. Contente, ele estende sua mão em direção à minha.

— Tudo bem?

— Aham.

***

— Mas o que deu errado com o Tomás?

— Nada. Foi tudo perfeito.

— E então?

— Não sei. Ele me buscou em casa, me apresentou aos amigos, fez de tudo pra que eu ficasse à vontade, me levou embora quando eu quis. Até me deu chocolate. E carona pro meu irmão.

— E?

— E nada. Foi isso. Foi bom, eu acho.

— Se tivesse sido bom, você não ia tá com essa cara de quem acabou de voltar do enterro.

— É que a gente tava lá, e tudo perfeito, mas e então por que eu sentia que não tava ali? Que era outra pessoa vivendo aquilo e não eu, que eu não podia falar, não conseguia, era um boneco de ventríloquo, e aí que mesmo se por algum milagre eu falasse não parecia que ia fazer muita diferença? Aí de repente eu tive uma sensação estranha de que a gente tava casado há pelo menos vinte anos. Lá, na rua, na frente de todo mundo, ele segurando minha mão e me abraçando, os amigos já quase usando o “vocês” pra falar com a gente, e todas essas pessoas vindo e dizendo o quanto aquilo tudo era fofo, e o quanto eu era legal, e o quanto ele precisava de alguém como eu.

— Isso é ruim?

Porque quase em 100% dos casos isso é menos vontade de agradar do que vontade de ser gostado

— Pareceu, na hora. Claro que eu fiquei de boa, normal. Continuei abraçando ele e tudo. Sorrindo. Sendo educada. Conversando com os amigos. Mas começou a rodar um filme na minha cabeça, o filme dos vinte anos casados, e a vida era feita de pessoas me chamando de “vocês”, e de nunca andar na rua com mãos livres, e nunca ver um filme sem alguém cochichando no meu ouvido e um braço sobre o meu ombro, e sempre meu corpo grudado nesse outro corpo que não é o meu e o meu deixando de ser meu, e aí essa existência coletiva esquisita de nunca poder ficar sozinha, nem na minha cabeça.

— Mas você nem conhece ele. Não tem como saber como vai ser depois de ter saído com ele uma única e mísera vez. Você tá preocupada por uma coisa que não existe ainda.

— É, talvez. Mas é que… Não, nada.

— Fala.

— Não é nada mesmo.

— Fala logo, Ana.

— É que isso de ter sido perfeito demais. Me deixou inquieta. Ele queria me agradar demais.

— E isso é ruim por que…?

— Porque quase em 100% dos casos isso é menos vontade de agradar do que vontade de ser gostado. E em 100% dos casos em que a gente se preocupa mais com ser gostado do que com de fato ver a outra pessoa, conversar com ela, descobrir quem ela é, a gente cria uma imagem dela que não existe, coloca ela a nosso serviço. Porque tudo meio que se perde nessa tentativa de prever como a outra pessoa vai reagir, que na verdade é uma tentativa de controlar como a outra pessoa vai reagir. Abrir a porta do carro pra ela gostar de você. Usar palavras e gestos e roupas que vão fazer ela gostar de você. Dar chocolate pra ela gostar de você. É tudo um fingimento disfarçado de admiração, de solicitude. Tem algo meio egoísta nisso. Nada que você faz é, tudo é para, e no fim, o fim desse para é sempre você. Você quer que a pessoa goste de você pra que você possa gostar mais de si mesmo. Mas daí você não enxerga ela. Nenhuma experiência com ela é de verdade.

— Não sei. Talvez você esteja vendo coisa demais onde não tem. Quer dizer, acho que é meio impossível a gente não se preocupar com o que as outras pessoas pensam da gente, ainda mais quando a coisa é romântica. Por essa lógica, nada é de verdade.

— É, mas é meio essa a questão. Não sei se isso é melhor que nada. Talvez nada seja melhor.

— Acho que você devia dar mais uma chance pra ele. Tenta ver as coisas de outro jeito.

— É. Eu já ia ver ele essa semana, de qualquer forma. Acho que vou conhecer a mãe dele.

— …

— Por que cê tá rindo, bobona?

— Você é engraçada.

***

“The Eve After the Fall”/ Alexandre Cabanel, 1863.

— E você já disse isso pra alguém? — a psicóloga pergunta. Os óculos dela se inclinam levemente para frente. Ela anota alguma coisa em seu bloco de papel amarelado.

— Pra minha melhor amiga, acho. Não lembro.

— E pro resto das pessoas, você mente?

— Não —  tosse — Acho que não. Não sei.

— Por que você acha que mente, Ana?

Há outra escolha?

— Pensei que fosse meio óbvio, doutora — olho nos olhos dela, bem fundo até ver minha figura refletida de cabeça pra baixo, invertida e retorcida, me olhando de dentro do buraco negro do olhar dela. É muito óbvio, doutora. — Pra agradar. Ser educada.

— Você vai explodir, Ana. Sabe disso, não sabe?

— Não vou, doutora.

Silêncio.

— Explodir é falta de educação.

***

“Helen of Troy”/ Anthony Frederick Augustus sandys, 1867.

— Você, Tomás, aceita se casar com Ana?

— Sim. Mil vezes sim.

Tomás beija minhas mãos. Me olha daquele jeito patético, olhos ansiosos, sem fundo. Quero vomitar em meu vestido branco. Eu deveria vomitar em você, Tomás. Deveria vomitar bem no meio da sua cara.

— Você, Ana, aceita se casar com Tomás?

Não.

Não.

Não.

não.

não.

não.

As engrenagens se acionam. Língua, mãos e sons, Ana. Deixe-o satisfeito consigo mesmo.

E o que sai é:

— Sim.

E todos me aplaudem, felizes.

*Isabela Nunes é pesquisadora da USP. Escreve Mensalmente.