A minha primeira leitura de (não vou confessar o ano, tenho imensas publicações em atraso), prenda de natal muito apreciada, foi logo um 5/5.

Em O Centauro no Jardim, descobrimos a intrigante história de vida de Guedali Tartakovsky, o quarto filho de Leão e Rosa Tartakovsky, um casal judeus que fugiram da Bessarábia e se refugiaram no interior de Rio Grande do Sul, no Brasil, com o patrocínio de Moritz Hirsch. Guedali, ao contrário dos outros filhos do casal, “humanos normais”, nasce centauro. Na celebração do seu 38º aniversário, parece estar feliz, parece ter atingido a vida normal que passara grande parte da sua vida a tentar ter - mas a que custo?

Agora é sem galope. Agora está tudo bem. Somos, agora, iguais a todos. Já não chamamos a atenção de ninguém.

Desde o início (ou seja, o seu nascimento), os seus pais ficam, é claro, horrorizados, qual Gregor Samsa lhes tinha nascido. Ou é o que Guedali sente do que lhe terá sido contado, pois é o narrador; ao longo da obra temos acesso tanto a descrições dos eventos como aos seus pensamentos, e as descrições da sua infância, durante a qual os pais o escondem do resto do mundo, são tragicómicas e de uma enorme exclusão de Guedali devido à sua óbvia diferença.

Cada capítulo toca num momento diferente da vida de Guedali, e o ritmo do livro é bastante rápido. Guedali cresce na fazenda, a família muda-se para a cidade, Guedali foge, torna-se indigente, junta-se a um circo, conhece o amor em Tita, sua semelhante, e vão para Marrocos em busca de uma resposta, tudo isto sucedendo rapidamente até chegar ao momento do jantar de aniversário da primeira página.

A vida enquanto centauro está curiosamente descrita, não só no físico mas no emocional. Será que galope é realmente errado? São os conflitos emocionais que tornam o livro particularmente interessante e nada previsível. A narrativa não foge à estranheza, seja pelo toque de realismo mágico, seja por ser a autobiografia de um centauro.

Não há centauros, me dizia o livro. Há nuvens semelhantes a centauros, há tribos selvagens que, montando a cavalo, assemelham-se a centauros; mas centauros não há. Eu olhava desconsolado o desenho do centauro no meu livro. O artista representava ali uma criatura bruta, barbuda, cabeluda, de olhar feroz. Não era eu. E eu nada tinha a ver com Ixion, Nefele, Tessália, Arcádia. Nuvens? Sim, de nuvens eu gostava, embora temesse certos vultos ocultos atrás delas. Mas, nuvens?... Eu estava atrás de algo mais concreto.

Há que salientar que esta diferença não é necessariamente a religião da família Tartakovsky (até porque nem com a família Guedali se consegue integrar), nem o facto de pertencer a um grupo de pessoas determinado no livro - é uma forma de ser “outro” em geral, que afecta não só o protagonista mas quem o rodeia, que incomoda, que o faz procurar por uma cura não obstante ele possivelmente querer gostar de quem é. E, quando essa cura chega, não quer dizer que os problemas (físicos e mentais) da diferença tenham desaparecido por completo; não quer dizer que Guedali fique feliz, que não queira voltar a ser centauro para se voltar a sentir ele próprio. Porque Guedali acaba por se sentir preso como homem como se sentia preso como centauro, e o caminho para a sua felicidade e liberdade não passariam pelo conformismo, pela integração. A sua dificuldade em encontrar um meio-termo entre ambos (porque acaba por não se identificar a 100% nem como homem, nem como centauro) representa a sua dualidade, entre homem e besta, entre a civilização e o selvagem, e a dificuldade de encontrar individualidade numa vida em sociedade, colectiva e resistir a renunciar à condição humana.

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