Fotografia da minha autoria

Tema: Livros para ler ao sol

A perspetiva de passar horas sucessivas deitada ao sol, confesso, não me fascina. E talvez seja por esse motivo que dispenso idas à praia. No entanto, sempre que vou, faço-me acompanhar por livros, até porque, verdade seja dita, é um cenário que convida a ler, tornando o processo de morenar muito mais agradável. Numa possibilidade alternativa, a esplanada de um bar é, também ela, uma excelente hipótese. A tranquilidade do mar abre portas para uma realidade narrativa paralela. E o aroma a brisa salgada embala a transição entre páginas. Neste ambiente descomplicado, há histórias que combinam na perfeição.

É raro estabelecer leituras mensais - excetuando este ano, uma vez que me comprometi com dois clubes de leitura. Contudo, em tempo de férias, procuro selecionar obras mais leves, que me permitam desfrutar de um enredo descontraído. Embora esta decisão não seja inflexível, tento priorizá-la, pois é uma maneira de alimentar a minha paixão literária, ao mesmo tempo que descanso. Isso não significa excluir exemplares com temas mais sérios, simplesmente, tento que a abordagem não tenha uma carga tão intensa. Quando vi a categoria de julho [e agosto] para o The Bibliophile Club, hesitei na escolha. Porém, percebi qual o caminho que me fazia mais sentido e estendi a toalha a Clara Não.

Miga, Esquece Lá Isso! lê-se num sopro, mas tem uma mensagem poderosa, destacando-se pelo sentido de humor, pela ironia, pela irreverência e pelos traços de ternura. Em simultâneo, importa ressalvar a força das ilustrações, atendendo a que complementam as palavras e a luta pela igualdade, pela exposição de tabus sociais e pela exploração de experiências pessoais. A dinâmica deste livro é bastante particular, oscilando entre a agressividade e a delicadeza. Entre a emoção e a razão. Entre a indignação e o divertimento. E, independentemente de todas as dicotomias que se encontrem, há uma certeza: transborda humanidade. A autora procura, em vários pontos, chocar, consciencializar e desconstruir ideias tão enraizadas na sociedade. É por essa razão que este manuscrito, apesar de entreter, não deixa de ser um grito: de revolta, de alerta, de libertação.

As «reflexões autobiográficas, que funcionaram como processo de cura», evidenciam um processo de auto-descoberta. E a travessia entre as várias fases emocionais de uma rutura. Assim, começamos por um estado de irritação, onde os insultos - sempre criativos - assumem um papel de destaque, fechando a porta a um possível regresso. Posteriormente, há um foco no amor, no compromisso, nas saudades e na preservação das memórias felizes, o que implica a gestão dos conflitos sentimentais. Numa terceira etapa - possivelmente, a mais introspetiva -, existe uma tomada de consciência sobre o valor da mulher. Neste manifesto, sente-se a influência da auto-valorização e da autoestima, diminuindo a opinião de terceiros, pois não é ela que define quem somos. No fundo, é quando há um reclamar de direitos. E de respeito. Por fim, abraçamos o recomeço. E, alheados do passado, voltamos a privilegiar os pensamentos soltos, fruto de ligações especiais.

Miga, Esquece Lá Isso! é uma fonte de amor-próprio, reunindo «alguns dos melhores dilemas, desaires e bandeiras urgentes do quotidiano». Porque todos nós, em algum momento da nossa vida, enfrentamos a solidão, o desencanto e os desgostos próprios do nosso crescimento. Ainda que Clara Não, com a sua abordagem descomplexada, consiga despertar a nossa boa disposição, o conteúdo desta obra é pertinente, porque insiste no feminismo, na independência, na individualidade, na igualdade, na defesa das nossas crenças e no quanto é fundamental sermos o nosso mundo, virando os problemas do avesso e observando-os de outra perspetiva. Porque tudo passa. Só não nos podemos esquecer que, embora as desilusões sejam dolorosas, o sol voltará a brilhar.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Eu estava onde tu estavas, mas tu já lá não estavas» [p:25];

«Estou tão confusa que me perdi em mim» [p:41];

«Sinto. Sinto muito» [p:50];

«Ninguém tem jeito para o amor, o amor é que nos apanha a jeito» [p:53];

«Eu só faço o que eu quiser. Não, é não» [p:64].

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