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«Sente na mente o que ninguém te fala»

As noites caem serenas. Há um vazio a palpitar, bombeando as emoções que desarmam um coração em [desas]sossego. Porque tudo pode ser diferente, rompendo o escuro luar que repousa numa aura a quarto crescente. Rumo a Sul, acompanhando o doce cantar dos anjos, que aparecem, secretamente, refletidos na água turva das minhas memórias. Porém, é cedo. Há promessas em sequência. Num ritmo normal, mas que nos obriga a olhar para dentro. E o teu choro chama-me, despertando-me para sentir tudo o que eu respiro, tudo o que eu ensino, tudo o que eu consigo, tudo o que eu vivo. Porque isto é tudo o que eu sou.

South Side Boy é o terceiro álbum de Diogo Piçarra e simboliza «os nossos medos, as nossas falhas, as nossas inseguranças» e todas as dúvidas que marcam o nosso percurso. E, nas palavras do músico, representa «o miúdo ou a miúda que ainda vive dentro de nós e que nunca cresceu», sendo a voz da realidade, sobretudo, para «nos relembrar de onde viemos» ou, inclusive, para ser «o grito que nos faz perder a confiança». Por essa razão, este trabalho assume uma dinâmica muito mais visceral, intensa e matura. Pelas experiências que abraçou e pelas aprendizagens que retirou de cada uma delas. Além disso, é uma prova de fogo, quer pela mensagem, quer pela abordagem. E é o quebrar do silêncio que o manteve em estúdio para se voltar a superar.

Este disco tem uma energia mais introspetiva, menos polida e «mais escura», até pelas temáticas que coloca em evidência. Simultaneamente, é uma homenagem às suas origens, à sua casa. E, sem descurar um traço romântico, espelha a fase que atravessa e algo que considero louvável: o seu perfil camaleónico. Porque não tem receio de arriscar, de explorar novos caminhos e novas sonoridades, mas sempre com a sensibilidade de se manter fiel à sua essência. Portanto, fiquei completamente siderada com este lado mais sombrio, que reflete sobre vários assuntos e características transversais na sociedade, que podem condicionar o seu futuro - generalizado e individual -, alertando para os obstáculos, para a necessidade de haver compromisso. Empenho. Seriedade. Fazendo-o de uma perspetiva empática e sem filtros.

Composto por 12 temas [sendo que dois só estão disponíveis na versão Deluxe], com os quais fiz um jogo de palavras no primeiro parágrafo, South Side Boy transborda identidade. E tem um cunho ainda mais vincado do artista, uma vez que assume uma postura fortalecida enquanto produtor. Munido com «uma linha mais coerente», é palpável a evolução, tornando este álbum arrojado. Genial. E não posso - nem quero - ignorar a qualidade das letras. Porque a sua escrita, em permanente metamorfose, tem uma lírica que nos arrebata. Que nos lê a alma. E que nos aproxima. Porque é poderosa. Terna. Inesquecível. Carismática. E com a dose certa de luz e sensações para nos emocionar.

O Diogo é mesmo feito de música. Tem o coração no lado certo. E uma honestidade que cativa. No entanto, neste disco, mergulha mais fundo, estabelecendo uma ponte entre aquilo que é [e pensa] e o que nós sentimos. Pessoal e relacional, South Side Boy é para escutar em constante repetição. Porque sai da sua zona de conforto. E porque, certamente, será um dos álbuns do ano. Que obra de arte inspiradora!



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